
Há algo de profundamente constrangedor no vira-latismo que ainda permeia setores da política brasileira, sobretudo em parcelas da direita — e não apenas na relação com figuras como Donald Trump. Essa postura recorrente, quase automática, revela mais do que simples alinhamento ideológico: expõe uma carência de projeto nacional e uma dependência simbólica de validação externa.
Alguns agentes públicos parecem acreditar que uma fotografia ao lado de líderes estrangeiros possui mais valor político do que a construção paciente de um programa consistente para o país. Mendigam apertos de mão, sorrisos protocolares e selfies como quem busca um certificado de relevância internacional. Transformam encontros diplomáticos — que deveriam ser instrumentos de afirmação soberana — em troféus pessoais, exibidos como prova de prestígio, enquanto o Brasil segue à espera de estadistas comprometidos com seus reais interesses.
Essa lógica reduz a diplomacia a espetáculo e submete o interesse nacional a uma espécie de fetiche pela proximidade com o poder estrangeiro. Em vez de negociação entre iguais, instala-se uma relação quase hierárquica, marcada por admiração acrítica e submissão simbólica. Não se trata de rejeitar alianças ou cooperação internacional — ambas são essenciais —, mas de compreender que tais relações devem ser guiadas por estratégia, reciprocidade e, sobretudo, dignidade.
A história demonstra que as nações que alcançaram relevância internacional não o fizeram pela bajulação dos centros de poder, mas pela capacidade de formular, sustentar e defender seus próprios interesses.
Nenhum país se torna respeitado porque seus dirigentes circulam em gabinetes prestigiosos; torna-se respeitado quando possui instituições sólidas, economia dinâmica, capacidade tecnológica e uma política externa coerente com seus objetivos estratégicos.
O verdadeiro estadista não viaja ao exterior em busca de reconhecimento pessoal.Viaja para negociar mercados, atrair investimentos, ampliar oportunidades para seus cidadãos e fortalecer a posição de seu país no concerto das nações. Quando a fotografia se torna mais importante do que resultados concretos, a diplomacia deixa de servir ao Estado e passa a servir à vaidade.
Relações internacionais não são encontros entre admiradores e ídolos políticos, mas pactos entre nações soberanas, conscientes de seus interesses e capazes de defendê-los com autonomia.
Talvez o maior problema desse comportamento seja pedagógico.
Ele transmite à sociedade a ideia de que o prestígio nacional depende da aprovação de potências estrangeiras, quando deveria decorrer, antes de tudo, da confiança que um povo deposita em si mesmo.
Países que se respeitam não se apresentam ao mundo de cabeça baixa nem de chapéu na mão: cooperam, negociam, divergem quando necessário e defendem seus interesses sem complexos de inferioridade.
Enquanto persistir essa cultura de deslumbramento, o Brasil continuará oscilando entre a retórica da grandeza e a prática da subserviência.
E nenhuma nação alcança verdadeira grandeza quando confunde diplomacia com devoção e soberania com aplauso recebido no exterior. De resto, há um abismo entre diplomacia e vassalagem — e é exatamente nesse intervalo que se mede a maturidade de um projeto de país.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
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