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CRÔNICAS DO PORTELINHA | O púlpito e a urna

Redacao
Ultima atualização: 2026/06/08 at 10:27 AM
Por Redacao
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CRÔNICAS DO PORTELINHA | O púlpito e a urna
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Há lugares que nasceram para acolher o silêncio, mesmo quando cheios de vozes.
A igreja é um deles. Ergue-se entre o céu e a terra como abrigo da esperança humana, onde os homens procuram respostas que a política raramente consegue oferecer e consolos que nenhuma campanha eleitoral promete cumprir.

Desde tempos imemoriais, os templos foram espaços de transcendência. Neles, as angústias do quotidiano encontram linguagem, os sofrimentos encontram sentido e a fragilidade humana encontra amparo.

O púlpito foi concebido para elevar o espírito, não para disputar o poder; para iluminar consciências, não para conduzir estratégias eleitorais.
Mas os tempos modernos tendem a confundir fronteiras. O púlpito, construído para a palavra espiritual, por vezes é tentado pela palavra eleitoral.

E quando a fé veste as cores de uma candidatura, a oração corre o risco de transformar-se em comício e a devoção em instrumento de disputa.
A democracia vive da liberdade de escolha; a religião, da liberdade de consciência.

Ambas são pilares fundamentais da convivência humana e ambas florescem melhor quando caminham lado a lado sem que uma procure dominar a outra. A fé oferece valores, princípios e referências morais. A democracia oferece mecanismos para que cidadãos livres decidam os rumos da comunidade política. São esferas distintas, embora inevitavelmente dialoguem.

A urna pede cidadãos. O altar pede fiéis. Quando os papéis se misturam, instala-se uma névoa onde já não se sabe se o voto nasce da convicção política ou da autoridade espiritual. E toda autoridade espiritual carrega um peso singular: fala ao íntimo das pessoas, ao lugar onde habitam as suas esperanças, os seus medos e as suas certezas mais profundas.

Não se trata de expulsar a fé da vida pública, nem de exigir que os crentes abandonem as suas convicções ao participarem da sociedade. Isso seria impossível e até injusto. Os homens levam as suas crenças para todos os lugares onde vivem, trabalham e decidem.

Trata-se, antes, de recordar que a fé pertence ao domínio da alma, enquanto a eleição pertence ao domínio da escolha cívica. Uma pode inspirar valores; a outra deve permanecer livre para decidir destinos.
A história oferece lições eloquentes.

Sempre que instituições religiosas se confundiram excessivamente com estruturas de poder político, acabaram por sofrer danos recíprocos. A política perdeu pluralismo; a religião perdeu universalidade.

O debate público tornou-se mais pobre e a própria mensagem espiritual passou a ser vista através das lentes estreitas das disputas partidárias.
Talvez por isso as instituições democráticas insistam em vigiar essa fronteira invisível.

Não porque a religião represente uma ameaça à democracia, mas porque a democracia se fragiliza quando qualquer poder — económico, político, mediático ou espiritual — pesa em excesso sobre a consciência individual.

O voto só é verdadeiramente livre quando nasce da reflexão do cidadão e não da pressão de qualquer autoridade.
Entre o sino e a urna existe uma distância pequena em metros, mas enorme em significado.

É a distância que separa a persuasão da imposição, a fé da preferência eleitoral, a transcendência do cálculo político. É uma linha subtil, quase invisível, mas essencial para a saúde das instituições e para a integridade das convicções religiosas.
Preservá-la não significa erguer muros entre religião e sociedade.

Significa proteger dois patrimónios igualmente preciosos: a santidade da fé e a liberdade do voto. Quando cada um permanece no seu espaço próprio, ambos ganham dignidade. A religião conserva a sua vocação de elevar consciências; a democracia preserva a sua missão de garantir que cada cidadão escolha o seu caminho sem constrangimentos.

Num tempo em que tantas fronteiras parecem dissolver-se, talvez esta seja uma das que mais merecem ser guardadas. Não por desconfiança da fé, mas por respeito à sua grandeza.

Não por medo da democracia, mas por reconhecimento da sua fragilidade. Afinal, tanto o altar quanto a urna dependem da mesma matéria-prima invisível: a liberdade humana.


JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.

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