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Sem paralelo de disputa Globo x CazéTV, Copa nos EUA teve TVs com cara de internet

Folhapress
Ultima atualização: 2026/07/19 at 7:36 AM
Por Folhapress
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LUCIANO TRINDADE
WEEHAWKEN, NOVA JERSEY, EUA (FOLHAPRESS) – De terno e sapatos sociais, Thierry Henry e Zlatan Ibrahimovic provam que não precisam de chuteiras nem de roupas mais confortáveis para exibir o talento que fez dos dois craques lendas do futebol. Nem o polido piso do estúdio da Fox atrapalha um duelo de habilidades entre eles.

Ao compartilhar o momento nas redes sociais, onde o vídeo viralizou, o sueco escreveu: “O estúdio nunca esquecerá”.

As interações de Henry e Ibrahimovic, assim como boa parte do pacote da Fox, podem parecer familiar para quem acompanhou o Mundial no Brasil. Há humor, personalidades maiores do que a análise técnica e uma conversa que parece estrategicamente pensada para render cortes para a internet mais do que informar sobre futebol. A impressão é a de que a televisão americana tem a sua própria versão da CazéTV.
Mas não é bem assim.

Diferentemente do que aconteceu no Brasil, onde o modelo da CazéTV abalou a hegemonia da TV Globo nas transmissões esportivas do país, apostando em uma linguagem descontraída e conectada ao estilo do mundo digital, nos Estados Unidos a transformação nas transmissões ocorreu dentro dos próprios canais tradicionais.

Sem um concorrente equivalente à emissora fundada por Casimiro Miguel (atualmente controlada pela Livemode), a Fox e a Telemundo –responsáveis, respectivamente, pela exibição das partidas em inglês e espanhol nos EUA– passaram a incorporar elementos típicos da cultura digital, como a valorização de personagens e a multiplicação de conteúdos distribuídos em diferentes telas, para se manterem donas da audiência do público.

Segundo Zac Kenworthy, vice-presidente da Fox Sports e responsável pela cobertura da Copa, a emissora buscou equilibrar “as histórias do futebol com aspectos culturais, como gastronomia, moda e as cidades-sede, para ampliar a conexão com um público que, muitas vezes, acompanha futebol apenas no Mundial”.

Ainda de acordo com o executivo, a escolha dos comentaristas buscou “se conectar instantaneamente com os fãs, oferecendo entretenimento e análises”.

No quesito entretenimento, Ibrahimovic tentou se destacar. No programa de pré-jogo da semifinal entre França e Espanha, ao ser questionado sobre quem seria o “rei da selva” entre Mbappé e Yamal, o sueco manteve a postura que tinha como jogador: “Eu sou o rei da selva”, disse, arrancando risos da bancada.

A estratégia também aparece na forma como a Fox organizou sua programação nas redes sociais. Em vez de divulgar apenas os jogos, a emissora apresentava uma grade composta por transmissões paralelas, programas de estúdio, câmeras dedicadas a jogadores, lives para TikTok e YouTube e, sobretudo, vídeos estrelados por Henry, Ibrahimovic e Rebecca Lowe, apresentadora britânica responsável por oferecer um tom mais jornalístico aos programas.

O movimento de buscar uma lógica semelhante ao que fazem no Brasil canais que nasceram na internet ocorreu mesmo sem ameaça de divisão dos direitos de transmissão da Copa nos EUA. A Fox assumiu as transmissões em inglês em 2018, a partir do Mundial na Rússia, e já tem conversas alinhadas para renovar o acordo para a edição de 2030.

“Com os contratos de transmissão exclusiva, não há realmente concorrência para os grandes eventos. Se você quiser assistir à Copa do Mundo nos Estados Unidos e preferir a versão em inglês, terá de assistir pela Fox”, explicou à Folha Kevin Hull, chefe da especialização em mídia esportiva da Universidade da Carolina do Sul.

O mesmo ocorre com quem quer ver transmissões em espanhol, já que a Telemundo também comprou os direitos em 2018 e mantém negociações avançadas pela próxima edição.

Sem uma ruptura pela concorrência, a disputa pela audiência ocorreu na chamada “segunda tela”, sobretudo o celular, onde os torcedores interagem com conteúdos antes, durante e depois dos jogos.

“As emissoras precisam encontrar maneiras de manter o público suficientemente engajado para que continuem acompanhando a transmissão, mesmo com todas essas informações adicionais à sua disposição”, acrescentou Hull.

Maxwell Foxman, professor associado de estudos de mídia e games da Universidade de Oregon, define o modelo das emissoras americanas como um “ecossistema da atenção”, em que não basta transmitir os jogos, pois é preciso continuar relevante enquanto o torcedor está no celular.

“Ecossistemas baseados na atenção estão proporcionando comentários complementares relevantes e gerando reações emocionais em torno da Copa do Mundo”, afirmou Foxman. Para ele, apesar da importância das interações na segunda tela, o foco principal continuará sendo a transmissão do evento.
“Os direitos de distribuição são fundamentais para a mídia esportiva. Isso não vai desaparecer tão cedo, mas a busca por mídias mais segmentadas e voltadas para comunidades para acompanhar seu time favorito é algo que está se tornando o padrão”, explicou.

Nesse modelo, segundo os pesquisadores, os comentaristas deixaram de ser apenas analistas dos jogos. Suas personalidades passaram a ser tão importantes quanto o que estão debatendo.

Apesar da disputa que ocorreu no Brasil entre Globo e CazéTV, o modelo americano ajuda a Fifa a evitar tratar televisão e criadores de conteúdo como universos concorrentes.

“Nós os vemos como ecossistemas complementares”, afirmou a entidade em resposta à Folha, acrescentando que a estratégia da Copa de 2026 foi criar um ambiente integrado entre emissoras, plataformas digitais e os chamados creators.

A própria Fifa organizou eventos e programas oficiais para influenciadores e criadores de conteúdo para a internet, com o objetivo de ampliar sua base junto ao público mais jovem, com foco na distribuição desses conteúdos no YouTube e no TikTok, parceiros oficiais da entidade.

Pesquisadores da mídia esportiva, porém, observam que a mudança vai além da cooperação entre formatos e cria uma nova disputa. Para Kevin Hull, “pouquíssimas pessoas assistem hoje ao jogo apenas pela televisão”. O desafio das emissoras, afirma, passou a ser manter a atenção do público enquanto ele acompanha redes sociais, aplicativos de mensagens e outras telas simultaneamente.

Para Ethan Tussey, professor de Cinema e Mídia na Georgia State University, a transformação alterou a forma como o esporte é consumido. Segundo ele, antes, o torcedor podia alternar entre diferentes canais e partidas na televisão. Agora, canais e plataformas digitais procuram manter as torcidas dentro de seus próprios ecossistemas, cercando a transmissão com documentários, podcasts e programas alternativos.

“O consumo de esporte está deixando de ser amplo para se tornar mais profundo”, resume.

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