
Há números que chegam à redação vestidos de festa. 5,3%.
O desemprego recuou e, segundo o IBGE, atingiu a menor taxa para um período encerrado em julho desde o início da série histórica. É uma boa notícia — e boas notícias, num país que por tanto tempo se acostumou a contar desempregados aos milhões, merecem ser celebradas.
Por trás de cada décimo que some da estatística pode haver uma porta que se abriu: uma carteira assinada; uma entrevista que enfim deu certo; um pai que volta para casa e anuncia:
— Começo segunda-feira.
Uma mãe que deixa de decidir qual conta adiar; um jovem que entra no mercado de trabalho; uma família que volta a planejar. Desemprego não é apenas uma categoria econômica. É uma experiência humana. Quem já passou por isso sabe que a palavra pesa muito mais do que as onze letras que a compõem.
O desemprego senta-se à mesa; entra no supermercado; acompanha a parcela da casa; observa a conta de energia. Interfere num casamento, mexe com a autoestima, adia sonhos. Às vezes, transforma até um simples telefonema numa esperança:
— Será que é a empresa me chamando?
Por isso, quando a taxa cai para 5,3% não devemos reagir com indiferença. Há algo muito importante acontecendo no mercado de trabalho brasileiro. Ainda assim, muitos trabalhadores continuam a fazer contas com a calculadora numa mão e a preocupação na outra. O salário entra pela porta e, antes de tirar os sapatos, já saiu pela porta dos fundos. O cartão de crédito — que parece ter personalidade própria — chega todo mês para cobrar seus direitos.
Os 5,3% contam uma história muito relevante, mas não contam a história inteira. A economia tem a estranha vocação de transformar dramas humanos em percentuais. Parece pouco — cinco vírgula três — mas dentro de cada ponto percentual existem pessoas.
Mesmo assim, é preciso reconhecer o avanço. Um país com mais gente trabalhando é, em princípio, um país com mais possibilidade de produzir, consumir, arrecadar e investir. Emprego não é apenas salário. É dignidade, independência, pertencimento; é a possibilidade de olhar para o futuro sem que ele pareça uma ameaça.
O desafio brasileiro agora talvez seja maior: transformar ocupação em trabalho de qualidade; trabalho em renda suficiente; renda em melhoria de vida; crescimento econômico em desenvolvimento social.
Os 5,3% merecem ser bem comemorados — sem euforia, sem negacionismo, sem transformar economia em torcida organizada. A notícia é boa. Muito boa. Mas o número mais importante ainda não foi inventado: aquele capaz de medir a tranquilidade de uma família quando alguém entra em casa, pousa a bolsa na cadeira e diz:
— Consegui emprego.
Nesse instante, não cai apenas a taxa de desemprego. Levanta-se uma esperança.
E, para que essa esperança se mantenha, será preciso escolher em outubro políticas que deem continuidade e aprofundem esse grande feito.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.
Redação
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