
PROSEMA
Há pessoas que falam.
E há pessoas que parecem organizar uma pequena biblioteca antes de terminar uma frase.
Flávio Dino pertence, para mim, a essa segunda categoria.
Confesso: se o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, resolvesse um dia abrir um curso de oratória, eu seria dos primeiros a procurar matrícula.
E não estou a brincar.
Ou melhor: estou a brincar um pouco, porque a vida também precisa de humor.
Mas a admiração pela palavra bem construída é séria.
Quando acompanho algumas intervenções de Flávio Dino, chama-me a atenção não apenas a argumentação jurídica, mas a facilidade com que transita por referências históricas, jurídicas, políticas e literárias.
É professor de Direito. Foi juiz federal. Passou pelo Legislativo. Foi governador. Foi ministro da Justiça. E chegou ao Supremo Tribunal Federal.
Tal percurso não significa que tenhamos de concordar com todas as suas posições.Uma coisa é concordância.
Outra coisa é reconhecer a capacidade de construir um argumento, sustentar uma ideia e usar a palavra como instrumento de exposição do pensamento.E é precisamente aí que entra o meu imaginário curso de oratória.
Eu chegaria cedo.
Caderno debaixo do braço.
Caneta preparada.
Talvez até me sentasse na primeira fila — coisa que estudante normalmente evita — para não perder nenhuma explicação.
“Professor Dino, qual é o segredo?”
Respirar antes da frase?
Escolher cuidadosamente as palavras?
Ter memória?
Ler muito?
Ou possuir aquele estranho arquivo mental onde aparecem, no momento certo, referências jurídicas, acontecimentos históricos e conceitos que o resto de nós jurava ter estudado um dia, mas já não sabe exatamente em que livro?
Porque oratória não é apenas falar bonito.
É saber organizar o pensamento.
É dominar o assunto.
É perceber o peso de uma palavra.
É saber quando alongar uma explicação e quando uma pequena frase produz efeito maior do que uma página inteira.
Naturalmente, no Supremo, o que verdadeiramente importa são os fundamentos jurídicos, os votos, a Constituição e as consequências institucionais das decisões.
Ministro não está num concurso de eloquência.
O plenário não é teatro.
E toga não é figurino.
Mas seria ingenuidade negar que, numa instituição em que quase tudo passa pela palavra — voto, debate, questão de ordem, divergência, fundamentação —, saber comunicar também conta.
Talvez por isso eu faça esta confissão pública:
Ministro Flávio Dino, se algum dia Vossa Excelência cansar um pouco dos processos e resolver abrir uma turma de oratória, guarde uma cadeira para este angolano.
Prometo não pedir desconto de estudante.
Só faço uma exigência:que o curso venha acompanhado de uma bibliografia.
Porque tenho a impressão de que, para falar daquele jeito, não basta aprender a falar.
É preciso ter lido muito antes de abrir a boca.
E aí está a lição maior.
A boa oratória começa muito antes do microfone.
Começa no livro.
Começa na leitura.
Começa na cultura.
E termina numa coisa aparentemente simples, mas cada vez mais rara:
ter alguma coisa para dizer — e saber dizê-la.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.
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