Há um velho ditado, desses que atravessam gerações, que diz: Queres conhecer uma pessoa, dê a ela poder ou dinheiro (frequentemente atribuída a Abraham Lincoln, embora popularizada por Robert G. Ingersoll em 1883).
Sempre me intriguei com essa sentença simples e dura, como verdade dita sem rodeios. Porque o poder e o dinheiro não criam ninguém, apenas levantam o véu.
Há quem diga que o caráter de uma pessoa se revela nas pequenas coisas: no trato com o garçom, na paciência no trânsito, na delicadeza com os mais frágeis. Pode ser. Mas há uma prova mais silenciosa e definitiva: dar a alguém poder ou dinheiro.
Enquanto a vida corre em sua rotina comum, quase todos sabemos representar bem. Somos gentis quando precisamos, humildes quando convém, generosos quando há testemunhas.
A escassez ou a falta de algo que necessitamos, curiosamente, nos disciplina. Ela impõe limites, ensina cautela, obriga convivências. Na falta, aprendemos a dividir, nem que seja por necessidade.
Mas quando o poder chega, ou quando o dinheiro sobra, algo se desloca dentro da pessoa. Não é que ela mude, é que ela se revela. Como um espelho que antes estava embaçado e de repente fica límpido.
O poder testa o respeito. Quem sempre foi justo continua sendo, ou se torna duro, impaciente, autoritário. O dinheiro testa o desapego. Quem sempre foi generoso amplia sua bondade ou se fecha em cálculos, medos e excessos. Em ambos os casos, desaparece a desculpa da limitação. O que sobra é a essência.
Já vi gente simples crescer e continuar simples. E já vi quem, ao menor sinal de vantagem, se perder em vaidades pequenas, tratando os outros como degraus e não como pessoas. É curioso: o dinheiro compra quase tudo, menos a grandeza. E o poder manda em muitos, menos na própria consciência, essa, se não for bem cuidada, se torna serva das próprias ilusões.
Talvez por isso seja tão perigoso desejar essas coisas sem antes conhecer a si mesmo. O poder amplia o alcance dos defeitos, e o dinheiro dá conforto aos vícios. Ambos são como lentes de aumento, pois não criam, apenas intensificam.
No fim, a frase não é um julgamento, mas um convite. Antes de querer mais, convém perguntar: o que em mim será ampliado? Porque, no dia em que a vida abrir as portas e oferecer poder ou dinheiro, não será um novo eu que atravessará, será apenas o velho eu, agora sem disfarces.
E é aí que está a insofismável verdade: não é o poder que corrompe, nem o dinheiro que transforma, eles apenas retiram o véu. E o que aparece, esse sim, sempre esteve ali.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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