PROSEMA
Ser patriota é amar a pátria e assumir responsabilidades pelo seu destino. É respeitar o seu povo, defender a sua soberania e desejar que os seus filhos vivam com liberdade, dignidade e justiça.
Esse amor também exige coragem para denunciar o que está errado. Quem ama o seu país pode discordar do governo, combater injustiças, exigir mudanças e protestar nas ruas. A pátria é maior do que qualquer presidente, partido ou mandato.
Mas como compreender alguém que se proclama patriota e deseja que outro país invada o seu?
Confesso: custa-me entender.
Uma invasão não entra apenas no palácio de quem governa. Atravessa bairros, escolas, hospitais e casas. Alcança a mulher que regressa do trabalho, o velho que espera o seu medicamento, a criança que ainda não sabe o nome dos partidos.
A bomba não pergunta em quem votamos.
E a mãe que procura um filho entre os escombros não encontra consolo na promessa de que tudo aquilo aconteceu para salvar a sua pátria.
Como antigo combatente, não consigo tratar a guerra como uma palavra leve, lançada numa discussão. Conheço o peso que ela deixa nas famílias, na memória e no silêncio dos sobreviventes.
Por isso, quando ouço alguém desejar uma invasão estrangeira por não aceitar o governo do seu país, pergunto-me: o que aconteceu ao amor que dizia sentir pelo seu povo?
Há uma dimensão jurídica nessa questão. No Brasil, a soberania é um dos fundamentos constitucionais da República. E o Código Penal prevê o crime de atentado à soberania, punindo quem negocia com governo ou grupo estrangeiro para provocar atos de guerra contra o país ou a sua invasão.
Nos Estados Unidos, a Constituição define a traição, e a legislação federal prevê penas que podem chegar à morte.
No Brasil, a Constituição proíbe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada.
Essas referências mostram a gravidade com que a soberania é protegida.
Não autorizam, porém, a chamar criminoso a qualquer pessoa que diga uma barbaridade.
A responsabilidade penal exige provas e o preenchimento dos requisitos da lei.
Mas a responsabilidade pelas palavras também existe.
Quem pede uma invasão precisa compreender o sofrimento que está a desejar para os seus compatriotas.
Como pode alguém levantar a bandeira brasileira e pedir que tropas estrangeiras atravessem suas fronteiras?
Talvez uma das explicações esteja no momento em que a paixão partidária ocupa todo o espaço do sentimento nacional. O adversário passa a ser visto como alguém que deve ser derrotado a qualquer preço, mesmo que esse preço seja pago pelo país inteiro.
É uma possibilidade que me inquieta: o ressentimento tornar-se maior do que o amor à pátria.
Quem faz esse apelo imagina que o invasor virá cumprir a sua vontade. Mas um exército estrangeiro chega com ordens, interesses e objetivos próprios. Quem o chamou poderá descobrir, tarde demais, que também perdeu o direito de decidir.
A soberania tem precisamente esse sentido: o direito de um povo decidir o seu destino. Com dificuldades, com divergências, com erros que precisam ser corrigidos — mas com voz própria.
É possível estar profundamente indignado e continuar a respeitar a vida dos outros. É possível querer uma mudança e trabalhar por ela sem entregar a decisão a um exército estrangeiro.
Não preciso de discutir a sanidade mental de quem pede uma invasão. Preciso perguntar pela sua responsabilidade.
Tem consciência do sofrimento que está a desejar? Aceitaria perder a sua casa? Ver os seus filhos fugir? Receber ordens de quem chegou armado?
A bandeira merece respeito. E esse respeito começa pelas pessoas que vivem debaixo dela.
Vestir as cores nacionais é fácil. Difícil é reconhecer que a pátria também pertence a quem pensa de outra maneira.
O Brasil pertence a todos os brasileiros, incluindo aqueles de quem discordamos.
Ninguém tem o direito de oferecer a liberdade de um povo como preço pela derrota de um adversário.
Ser patriota exige essa maturidade: querer o bem do país mesmo quando o resultado das urnas nos desagrada.
Porque uma pátria não pode ficar refém do nosso ressentimento.
Quem deseja vê-la invadida para derrotar um adversário precisa responder a uma pergunta:
Ama a sua pátria — ou ama apenas a possibilidade de mandar nela?
O governo pode mudar nas urnas. A pátria não pode ser entregue por vingança.
Tenho dito e não é sem razão, que os partidos são efêmeros e a pátria é eterna!
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





