
PROSEMA
Há prisões que dispensam grades. Basta ensinar ao prisioneiro que o mundo termina na porta da cela.
Depois, pode-se até deixar a porta aberta.
Ele permanece. Tem medo do caminho, desconfia do horizonte e considera perigoso quem lhe fala de liberdade.
Penso nisso quando vejo alguém defender, com tanta paixão, aquilo que lhe diminui a vida.
A mentira repetida até ganhar voz de verdade. O preconceito recebido como herança de família. A obediência que nos ensinaram a confundir com virtude.
As amarras vão chegando devagar. Uma palavra que deixamos de dizer. Uma pergunta que engolimos.
Uma injustiça diante da qual baixamos os olhos para continuar pertencendo ao grupo.
Até que, certo dia, já somos nós a vigiar a porta.
Quem viveu muito tempo à sombra pode sentir dor quando a luz lhe chega aos olhos. Compreender isso exige paciência. Mas a paciência também precisa de coragem para dizer:
há coisas que aprendemos e que precisamos de desaprender.
Nenhum de nós está livre desse trabalho.
Também eu preciso de examinar as minhas certezas, sacudir-lhes a poeira, perguntar de onde vieram. Algumas resistirão às perguntas.
Outras talvez revelem apenas o medo que eu tinha de ficar sem elas.
É difícil admitir um engano quando já o defendemos em público. Parece que toda a nossa vida será desmentida por uma única mudança de opinião.
E, para salvar o orgulho, continuamos a sacrificar a consciência.
Quantas vezes chamamos coerência a essa teimosia?
Por isso, não quero rir de quem está preso. Quero lembrar-me de que também posso trazer uma corrente escondida debaixo da manga.
A liberdade dá trabalho.
Obriga-nos a escolher sem o conforto de uma voz que decida tudo por nós. Obriga-nos a ouvir, a reconhecer limites, a reparar o mal que fizemos enquanto julgávamos ter razão.
Talvez comece assim: numa pergunta que finalmente temos coragem de fazer.
E prossiga no instante em que olhamos para aquilo que sempre venerámos e percebemos a marca que deixou nos nossos pulsos.
Nesse dia, a porta aberta ganha outro sentido.
E damos o primeiro passo.
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JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.
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