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CRÔNICAS DO PORTELINHA | A cadeira e o espelho

Redacao
Ultima atualização: 2026/06/12 at 11:20 AM
Por Redacao
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CRÔNICAS DO PORTELINHA | A cadeira e o espelho
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CRÔNICAS DO PORTELINHA | Trump e Lula no chá das cinco em Kuala Lumpur

As nações também disputam lugares à mesa.
Nesta semana, o Brasil conquistou um deles ao ser eleito para o Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas.

Foram 181 votos favoráveis, número expressivo o suficiente para dizer algo que vai além da aritmética diplomática: no concerto das nações, o país continua a ser ouvido.
Há quem veja apenas uma cadeira. A diplomacia vê algo mais.

Cada assento numa instituição internacional representa influência, capacidade de diálogo e reconhecimento de que determinado país possui legitimidade para participar da construção dos consensos que moldam o mundo. Não se trata apenas de ocupar espaço físico numa sala de reuniões em Nova Iorque, mas de integrar os círculos onde se debatem prioridades, se negociam agendas e se constroem entendimentos que influenciam a vida de milhões de pessoas.

O Conselho Econômico e Social da ONU, conhecido pela sigla ECOSOC, não distribui manchetes com a frequência do Conselho de Segurança nem produz o dramatismo das crises militares.

O seu trabalho é menos espetacular e talvez por isso mais profundo. É ali que se discutem temas que moldam silenciosamente o futuro: desenvolvimento económico, comércio internacional, combate à pobreza, sustentabilidade, direitos humanos, igualdade de género e cooperação entre Estados.

Num tempo marcado por transformações tecnológicas aceleradas, mudanças climáticas, desigualdades persistentes e tensões geopolíticas crescentes, essas questões deixaram de ser matérias periféricas para ocupar o centro das preocupações globais. As decisões tomadas hoje nesses fóruns ajudam a definir os caminhos do desenvolvimento das próximas décadas.

Ao eleger o Brasil, a comunidade internacional não conferiu apenas um mandato. Concedeu um voto de confiança na sua capacidade de participar dessas discussões e contribuir para elas.
Nos corredores da diplomacia, onde os gestos valem tanto quanto os discursos, a eleição é interpretada como sinal de que o país preserva capacidade de articulação internacional.

Trata-se de um reconhecimento que dialoga com uma tradição diplomática construída ao longo de décadas, marcada pela defesa do multilateralismo, da negociação e da busca de soluções cooperativas para problemas globais.

Num mundo cada vez mais fragmentado por rivalidades estratégicas, guerras comerciais e disputas de influência, ser reconhecido como interlocutor continua a ter valor.

Em tempos de polarização internacional, a capacidade de dialogar com diferentes blocos e interesses converte-se num ativo político relevante.

Mas a política raramente deixa escapar uma oportunidade simbólica.
Quando uma conquista internacional ocorre em contexto de intensas disputas políticas internas, ela rapidamente deixa de pertencer apenas à diplomacia e passa a integrar as narrativas domésticas. O feito pode ser apresentado como evidência de prestígio externo, competência governativa ou capacidade de liderança. Os adversários, por sua vez, procurarão relativizar o significado da conquista ou questionar os seus efeitos concretos sobre a vida dos cidadãos.
É a velha transformação do palco internacional em espelho nacional.

Enquanto diplomatas celebram a eleição como resultado de negociações pacientes e relações construídas ao longo dos anos, estrategas políticos observam o mesmo acontecimento procurando medir o seu impacto no humor do eleitorado. O que para uns é reconhecimento internacional, para outros é apenas um episódio protocolar. O debate político encarrega-se de reinterpretar os factos conforme as conveniências do momento.

No entanto, para além das disputas partidárias, permanece um facto essencial: as nações são julgadas não apenas pelo tamanho da sua economia ou pela força das suas instituições, mas também pela confiança que inspiram entre os seus pares.

A influência internacional não nasce apenas do poder militar ou da riqueza material. Ela também resulta da credibilidade, da previsibilidade e da capacidade de construir pontes num sistema internacional frequentemente marcado por divisões e desconfianças.
A cadeira conquistada pelo Brasil na ONU é, ao mesmo tempo, um lugar e um reflexo.

Um lugar onde poderá participar das discussões que influenciam o desenvolvimento global. Um reflexo da imagem que consegue projetar para o mundo e da confiança que ainda desperta entre as demais nações.
Porque, na política internacional, cada voto recebido é mais do que um número. É uma mensagem.

E as mensagens diplomáticas, embora silenciosas, costumam dizer muito sobre a posição que um país ocupa no mundo — e sobre o lugar que pretende ocupar no futuro.

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