O corpo humano é um segredo antigo habitando e caminhando pela terra. Uma arquitetura de silêncios que se move como quem dança dentro do próprio mistério. Há quem o chame de máquina, mas máquina alguma conhece o desatino da vida, nem o brilho suave que mora no intervalo entre um suspiro e outro.
Dentro de nós, há um coração que pulsa como um tambor escondido no etéreo, marcando o compasso do mundo sem jamais ter aprendido música. Ele apenas sabe. Sabe continuar, sabe insistir, sabe que o tempo é um animal indomável e, ainda assim, decide acompanhá-lo.
Nos pulmões, o ar entra como quem pede licença para existir e sai levando embora o que já não precisamos. É uma coreografia de dentro, uma dança invisível, um diálogo antigo entre o corpo e o vento.
Os olhos são dois pequenos sóis. Captam o mundo, mas também o inventam, transformam o comum em espetáculo incomparável, o banal em nascente, o instante em eternidade. Às vezes, uma única imagem basta para redesenhar o que somos. Outras vezes, é no escuro que eles mais enxergam.
A pele, ah, a pele! Mapa vivo onde o tempo escreve seus poemas. Ela guarda o calor dos abraços, o sal das lágrimas, o vento das tardes que passaram antes de sabermos que eram únicas. Cada cicatriz é uma frase sublinhada pela vida, lembrando que até a dor sabe ser artesã. Cada ruga carrega uma história de lutas, labutas e vitórias…
E dentro desse templo que carregamos, há algo ainda maior: o invisível.
A força sem nome que nos levanta quando não há mais chão. A luz que acende o riso sem motivo.
A alma, ou o que quer que seja, que faz do corpo um instrumento capaz de esperança e do acreditar no milagre chamado vida.
Se somos máquina, então somos a mais improvável de todas.
Uma máquina que sangra, que sente, que sonha. Uma engrenagem que erra o passo e, mesmo assim, encontra beleza no tropeço. Um mecanismo que aprende a amar, mesmo sabendo que o amor é sempre risco, embora resuma todos os sentimentos, uns de frustrações e a grande maioria de realizações.
Perfeito? Talvez não. Mas há uma perfeição que não cabe nos manuais: a perfeição do que continua. Do que floresce apesar das tempestades. Do que repousa, recomeça, renasce.
O corpo humano é isso: um milagre disfarçado de cotidiano. De milagres que acostumamos e quase não damos valor pela insistência de se repetir. O corpo humano é um verso que caminha, é uma poesia que respira em cada um de forma diferente, nunca igual.
E nós, passageiros desse universo íntimo, seguimos, comovidos, dentro dele.
E acima de tudo sendo poetas, cada um a seu modo.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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