Há milagres tão cotidianos que a gente se acostuma a chamá-los de normalidade. Os cinco sentidos, por exemplo esses guardiões silenciosos que vigiam o mundo para nós e trabalham com a discrição de quem sabe que a beleza não precisa fazer alarde.
O olhar (visão) é o primeiro a acordar; abre a janela e deixa o mundo entrar. É ele que tinge nossos dias de cores que não sabemos nomear completamente. O vermelho-pôr-do-sol que nunca é igual ao de ontem, o azul que insiste em não caber em nenhum lápis de cor. A visão é um pintor invisível: mistura luz e sombra, entrega quadros inéditos a cada piscada.
Depois vem o ouvido (audição), esse poeta das vibrações. Ele traduz o vento que passa, o riso que chega sem pedir licença, as músicas que atravessam o corpo como se procurassem morada. O ouvido é mais sensível do que confessa; ele sabe distinguir até o silêncio, e percebe quando o silêncio é paz ou quando é apenas falta.
O olfato, por sua vez, vive à espreita. Discreto, mas essencial. É ele quem nos devolve à infância com um único aroma. Um cheiro de pão quente que nos abraça de novo, um perfume esquecido que traz de volta alguém que já se foi, um cheiro de terra molhada que faz o coração bater em ritmo de temporal. O olfato é um arqueólogo: desenterra memórias que julgávamos perdidas.
O paladar é mais atrevido: quer experimentar o mundo com a boca. Ele sabe que a vida muda de sabor conforme o humor do dia. Há dias adocicados, outros amargos, e todos são necessários para compor o cardápio da existência. O paladar é gourmet de emoções: saboreia lembranças, tempera experiências.
E por fim, o tato, esse sentido que talvez seja o mais humano de todos. É ele quem confirma aquilo que só acreditamos quando tocamos: a mão de quem amamos, a pele quente de um abraço, a aspereza que cura, a maciez que conforta. O tato é o único que não apenas sente ele devolve sentimento.
Juntos, os cinco sentidos fazem um concerto silencioso. Nenhum quer ser protagonista; todos se revezam para que o espetáculo da vida continue pleno, íntimo, sensível. São milagres humildes, feitos à revelia de nós mesmos.
E eu me pergunto, às vezes, se a vida não seria apenas isso: aprender a perceber os pequenos milagres com os quais nascemos. Porque, no fundo, somos feitos de sentidos e é através deles que o mundo encontra algum sentido em nós.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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Redação
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