
Parecia bastante fácil abocanhar adeptos do gado alegre. O diabo, sábio de práticas seculares de exercício da malícia, apenas fez um gesto. Chamou displicente o recém decaído, ainda no papel de adjuvante menor. A hierarquia era coisa ali sagrada. Palitando os dentes depois do almoço, explicaria ao aprendiz:
— O caso é fácil, moleza para você, que está no primeiro estágio da pós-graduação em estudos apocalípticos avançados. Vá logo que vou tirar um cochilo. Se até Deus descansou, imagine eu, que louvo o pecado da preguiça.
Começaria pelo grupo que se dizia religioso, cristão, defensor da família etc.
Para o mais arrogante, alçado precocemente à condição de juiz de um supremo tribunal, bastava acenar com recursos milionários para seu instituto, advindos de um adjuvante maior, um banqueiro descaradamente corrupto. Poderia acrescentar logo a doação de um terno caro, porque convinha alimentar a vaidade.
Os pecados deveriam somar-se.
Orgulho, arrogância, mau-caratismo.
O outro, também cafona e mais barato, seria comprado com a contratação de uma garota de programa. Só 10 mil.
Uma pechincha.
Para outros, na grande lista dos avidamente dispostos a vender barato a salvação, contratara prostitutas suíças devidamente selecionadas e todas a caminho. Haveria bacanais, devidamente gravados para posterior chantagem. Os bobos cairiam na lábia, banqueteando-se glutões. Estavam todos no auge do poder e se esqueceram rápido de uma possível queda.
Que importa se o preço a pagar fosse entregar o país aos EUA, arrasar com a vida de milhões de trabalhadores, retirando direitos duramente conquistados? A cara não queimava, não ardia, com o Botox devidamente aplicado e o necessário óleo de peroba.
Foram obviamente gastos bilhões, mas que importa? Era dinheiro público, roubado de aposentados e a PF seria convocada a investigar apenas alguns, ignorando o montante dos outros.
O diabo menor foi, fez o serviço, escreveu o relatório.
Ganhou pontos para sua ascensão às profundezas.
As eleições? O diabo já dormia. A mídia golpista cuidaria do resto.
LUIZA SILVA
É professora universitária, pesquisadora, poeta, cronista, petista e vó do Vicente.
Redação
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