
Há momentos em que as nações deixam de caminhar e passam a encarar espelhos.
Os Estados Unidos olham agora para um desses espelhos severos, onde já não se pergunta apenas quem governará os próximos anos, mas o que restará da própria ideia de República quando as urnas forem fechadas e o silêncio da eleição der lugar ao ruído das consequências.
As democracias raramente morrem de um golpe súbito.
Quase nunca tombam apenas pelo estampido das armas ou pela violência explícita dos quartéis. Em geral, adoecem lentamente, corroídas por dentro, como velhas estruturas consumidas por ferrugem invisível.
A erosão começa quando a paixão por líderes se torna maior do que o respeito pelas instituições; quando a verdade perde espaço para a propaganda; quando o país deixa de confiar nas leis e passa a acreditar exclusivamente na vontade de um homem.
Há um instante delicado em toda democracia: aquele em que a política deixa de ser debate e transforma-se em devoção.
Os adversários deixam de ser opositores legítimos e passam a ser tratados como inimigos morais. O contraditório já não é visto como parte essencial da liberdade, mas como ameaça a ser eliminada.
E então a Constituição — que deveria ser a casa comum de todos — começa a parecer um obstáculo antiquado diante do fervor das multidões.
A História conhece bem esse caminho.
Repúblicas não costumam desaparecer anunciando o próprio funeral. Elas se desfazem aos poucos, enquanto parte da população acredita que tudo ainda está sob controle.
O desgaste democrático raramente chega vestido de tirania explícita; muitas vezes surge envolto em discursos patrióticos, promessas de grandeza nacional e slogans emocionais capazes de transformar ressentimento em identidade política.
Existe qualquer coisa de profundamente trágico nisso tudo.
Porque as democracias nasceram justamente para impedir que o destino coletivo fosse sequestrado pela vontade isolada de um único homem.
O Estado de direito foi concebido para limitar paixões, conter impulsos autoritários e lembrar aos governantes que nenhum poder deve ser absoluto.
Quando essa arquitetura moral começa a ruir, não é apenas a política que se fragiliza — é a própria ideia de convivência civilizada.
Steve Schmidt ergue o seu alerta como quem toca um sino em noite de incêndio: ou a América preserva a integridade de suas instituições, ou descobrirá tarde demais que nenhuma potência é forte o suficiente para sobreviver indefinidamente à corrosão interna provocada pela divisão, pelo ressentimento e pelo fascínio do poder absoluto.
E talvez o aspecto mais inquietante de tudo seja perceber que o perigo contemporâneo não se apresenta apenas através da violência, mas também através do cansaço.
O cansaço dos cidadãos diante da política.
O cansaço diante da verdade.
O cansaço diante da necessidade permanente de defender princípios democráticos que pareciam, até pouco tempo atrás, definitivamente consolidados.Toda geração recebe uma pergunta histórica.
Algumas recebem guerras. Outras recebem fome, epidemias ou ditaduras. Esta geração recebeu uma escolha moral: decidir se a democracia continuará sendo um valor vivo ou apenas uma lembrança solene repetida em discursos oficiais.
Porque democracias não desaparecem somente pelas mãos dos tiranos.
Às vezes desaparecem pelo silêncio dos moderados.
Pela indiferença dos cansados.
Pela normalização do absurdo.
E sobretudo quando cidadãos livres começam a acreditar que liberdade é um patrimônio eterno, incapaz de ser perdido.
Nenhuma civilização está imune ao declínio. Nenhuma Constituição é indestrutível. Nenhuma nação, por mais poderosa que seja, consegue sobreviver para sempre quando a confiança coletiva se dissolve e o pacto democrático deixa de ser um compromisso comum para tornar-se apenas uma disputa de facções.
Talvez seja exatamente esta a grande encruzilhada do nosso tempo: compreender que a democracia não morre apenas quando é atacada — ela também morre quando deixa de ser defendida.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
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