O cenário desenhado no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 aponta para um estrangulamento da capacidade de aglutinação centrista que garantiu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Naquela ocasião, a Frente Ampla funcionou como um mecanismo de contenção, ancorado por figuras da centro-direita e do centro, que atraiu o eleitorado moderado. Em 2026, contudo, a fragmentação das forças derrotadas no primeiro turno revela uma inclinação ideológica predominantemente à direita. Sob a lógica aristotélica da política como campo de alianças, a transferência natural desses espólios eleitorais tende a gravitar em torno de Flávio Bolsonaro, isolando a candidatura governista.
Essa dinâmica é amplificada pelo desenho institucional que emerge das urnas. A vitória expressiva da direita no Senado Federal — simbolizada pela eleição de Michelle Bolsonaro no Distrito Federal e de bancadas conservadoras robustas —, somada à reeleição ou eleição de governadores alinhados ao bolsonarismo em estados-chave já no primeiro turno, cria o que a Ciência Política chama de onda de governabilidade antecipada. Flávio Bolsonaro não disputa o segundo turno apenas como um indivíduo, mas como o topo de uma pirâmide institucional já amplamente edificada.
1. Maquiavel: A Frente Ampla e a Crise da Virtù frente à Fortuna
Na clássica formulação de Nicolau Maquiavel em O Príncipe, o sucesso do governante depende do equilíbrio entre a virtù (a capacidade política de agir, prever e moldar as circunstâncias) e a fortuna (as forças imprevisíveis da história e do contexto). Em 2022, a esquerda brasileira demonstrou virtù ao costurar uma coalizão pragmática que neutralizou as adversidades conjunturais. Contudo, em 2026, a fortuna alterou-se drasticamente. O esgotamento econômico, o desgaste natural do exercício do poder e a incapacidade de renovar o discurso político transformaram a outrora sólida Frente Ampla em uma estrutura frágil. Maquiavel ensina que o governante que confia inteiramente na fortuna ou que não adapta sua conduta aos novos tempos rui; o enfraquecimento do centro e o isolamento de Lula no segundo turno refletem essa incapacidade de domar os ventos históricos da Nova Direita.
2. Thomas Hobbes: O Leviatã e o Choque Institucional com o STF
Sob a ótica de Thomas Hobbes, a estabilidade do Estado — o Leviatã — repousa na indivisibilidade da soberania e na clara definição de quem detém o poder de coerção e julgamento final. Quando as instituições entram em rota de colisão direta, o fantasma do estado de natureza (a desordem e o conflito) paira sobre a res publica. A eleição de uma maioria conservadora expressiva no Senado Federal em 2026 desenha um cenário hobbesiano de choque de poderes. O Supremo Tribunal Federal (STF), que nos últimos anos assumiu o papel central de fiador da ordem democrática, passa a ser o alvo direto de um Legislativo fortalecido pelo voto popular. O uso do mecanismo de impeachment de ministros da Suprema Corte deixa de ser uma hipótese teórica e se transforma em uma ferramenta de disputa pela soberania do Estado, colocando em risco o equilíbrio e ameaçando paralisar o pacto civil que sustenta a República.
3. Antonio Gramsci: Hegemonia Cultural, o Voto Evangélico e a Periferia
Para compreender o fenômeno do chamado ‘pobre de direita’, o instrumental teórico de Antonio Gramsci torna-se indispensável. Gramsci demonstrou que o poder político não se mantém apenas pela força, mas principalmente pela hegemonia cultural — a capacidade de uma classe ou grupo social universalizar seus próprios valores, fazendo com que outras classes os adotem como senso comum. A virada eleitoral nas periferias e o peso decisivo do voto evangélico em 2026 não são frutos de alienação, mas de uma profunda vitória hegemônica da direita. Ao longo da última década, o ecossistema conservador soube dialogar com o trabalhador informal e microempreendedor por meio da teologia da prosperidade e de pautas morais de ordem e família. A direita construiu uma nova identidade aspiracional que substituiu o discurso de solidariedade de classe e redistribuição da esquerda pelo individualismo meritocrático e pela fé transformadora.
4. O Eixo Transnacional e os Rumos da Res Publica a partir de 2027
O avanço conservador no Brasil sintoniza-se perfeitamente com o pêndulo geopolítico global, fortalecido pela influência de Donald Trump nos Estados Unidos. A partir de 2027, uma potencial vitória de Flávio Bolsonaro pode alinhar o Brasil a um robusto eixo transnacional de direita, isolando propostas progressistas e redefinindo a política externa. O maior risco que se projeta para a res publica (a coisa pública) reside no esvaziamento de seu espírito republicano. Seguindo a tradição de Cícero, a República exige a primazia do bem comum sobre os interesses privados. O avanço do iliberalismo ameaça manter a casca formal das instituições democráticas enquanto instrumentaliza seus mecanismos internos para a perpetuação de um projeto familiar e partidário, desafiando as bases do constitucionalismo brasileiro.
JOSEILTON BATISTA FRANCA – JB
É jornalista, licenciado em Filosofia pela UFT, especialista em Filosofia Política pela Universidade do Minho / Portugal; e especialista em Filosofia Moral e Política pela Universidad de Salamanca / Espanha
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