Dois advogados, já de cabelos grisalhos, com décadas de uma carreira brilhante, receberam o convite para a mesma cerimônia de premiação da Ordem dos Advogados. O primeiro passou a vida dedicando-se ao direito de família, orgulhoso por ter pacificado centenas de lares e mantido um escritório acolhedor, onde atendia a todos.
No evento, ele assistiu ao segundo advogado, um famoso criminalista de tribunais superiores, ser aplaudido de pé pela plateia e cercado por repórteres. Naquela noite, o peso da inveja esmagou trinta anos de orgulho profissional. O jurista de família passou os meses seguintes amargurado, tentando migrar para grandes causas midiáticas apenas para buscar aquele mesmo aplauso, ignorando o cansaço do próprio corpo.
Cometeu erros primários em processos grandes e acabou manchando sua reputação impecável na véspera da aposentadoria. Ele jamais soube que o criminalista aplaudido, com a saúde destruída pelo estresse e sem família com quem celebrar, invejava secretamente a paz e o respeito humano que o colega havia cultivado ao longo da vida.
Ao cobiçar o troféu alheio no fim da jornada, ele jogou fora o valor da sua própria história.
Essa pequena parábola que criei, serve para mostrar que a inveja é um sentimento silencioso. Raramente bate à porta anunciando sua chegada. Ela entra devagar, pelos olhos, quando observando a conquista de alguém e, em vez de admirar a pessoa passa a sofrer por não possuir as mesmas habilidades.
Curiosamente, a inveja costuma nascer entre pessoas próximas ou do relacionamento.
Quase ninguém inveja um rei distante ou um artista famoso que nunca viu.
O problema não está na felicidade do outro, mas na incapacidade de reconhecer o próprio valor.
Talvez nem mereça esses comentários, por ser o mais silencioso dos venenos humanos. A inveja não chega anunciando guerra, nem bate à porta com barulhos. Ela entra devagar, como a serpente que conhece as frestas da alma. Rasteja pelos cantos escuros do coração, alimentando-se daquilo que o outro possui: a alegria das conquistas na vida, a paz de espírito, as batalhas vencidas, a certeza do dever cumprido nesta passageira vida e o brilho nos olhos e nos sorrisos largos.
O invejoso raramente deseja apenas ter. Muitas vezes deseja que o outro deixe de possuir. É aí que a inveja revela sua face mais ignóbil, mais vil. Não suporta ver florescer aquilo que nele mesmo secou. Sorri diante do invejado, mas por dentro contabiliza derrotas alheias como quem coleciona troféus secretos.
E, no entanto, a inveja não vive apenas no chão. Quando quer alcançar quem admira e odeia ao mesmo tempo, ela cria asas. Voa alto como a águia, observando cada passo, cada vitória, cada felicidade daquele que se tornou alvo de sua amargura. Vigia de longe, comenta em silêncio, tenta diminuir aquilo que não consegue construir.
Curioso é que o invejado quase nunca percebe de imediato. Continua vivendo, trabalhando, sonhando. A inveja, porém, consome primeiro quem a abriga. Corrói a serenidade, transforma admiração em tormento, faz da comparação um cárcere sem grades.
Por isso os espíritos verdadeiramente nobres celebrem a vitória alheia. Porque compreendem que a luz do outro não apaga a própria chama. Só a inveja acredita que o mundo precisa escurecer para que ela possa brilhar.
É como dizia nosso inesquecível Desembargador Liberato: Quem inicia um incêndio raramente consegue controlar a direção do vento. O fogo muda de rumo e queima quem está perto e, em especial, o próprio autor.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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