Antes da faixa de governador, houve um homem ao leme de um pequeno avião. Antes dos palanques, houve pistas de terra, distâncias difíceis e gente à espera de socorro.
Chamava-se Vicente de Paula Oliveira. O povo chamou-lhe Comandante Vicentão.
E há nomes que parecem crescer para acomodar a dimensão de quem os carrega.
Negro, de origem humilde, encontrou na aviação um caminho de trabalho e de serviço. Imagino o que significava, naquele tempo, ouvir um motor aproximar-se de uma povoação distante: alguém levantava os olhos; alguém corria para avisar; uma família voltava a acreditar que o seu doente chegaria ao médico.
Entre Redenção e Porto Nacional, o avião transportava pessoas atingidas pela malária e por outros males. Cada viagem levava consigo a urgência de uma casa inteira. Naqueles bancos, cabiam o enfermo e a esperança dos que ficavam em terra.
O céu podia encurtar o sofrimento.
Entre os episódios dessa trajetória está o socorro ao menino José Carlos Leitão, ferido em Novo Acordo. Um menino precisava chegar a Porto Nacional. Havia um piloto disposto a buscá-lo. Às vezes, uma vida inteira depende desse encontro entre a necessidade e a disponibilidade de outro ser humano.
Vicentão também ajudou a construir o Aeroclube de Porto Nacional. Ensinou outros a voar. E ensinar é uma maneira bonita de prolongar as próprias mãos: chega um dia em que o aluno decola sozinho e leva consigo alguma coisa de quem mostrou-lhe o caminho.
A sua atenção alcançava também a vida cultural da cidade. Quando um incêndio atingiu um circo, ajudou a acolher os artistas e a mobilizar recursos para uma nova lona. Compreendia, pelos gestos, quanto trabalho, pão e alegria dependiam daquele picadeiro.
Há uma grandeza particular em acudir a quem perdeu tudo e ajudá-lo a recomeçar.
É dessa história familiar que vem Vicentinho Júnior, neto do comandante e filho de Vicentinho Alves.
O governador eleito recordou, certa vez, que no comércio do avô, na Praça do Centenário, se discutia a criação do Tocantins. Gosto de pensar nesse lugar: gente conversando, discordando, fazendo planos, dando palavras a um Estado que ainda procurava lugar no mapa.
O Tocantins existiu primeiro como desejo.
Foi preciso que muita gente o imaginasse, o defendesse e trabalhasse por ele.
Agora, o neto daquele aviador recebe das urnas a responsabilidade de governá-lo.
Essa origem merece ser conhecida. E merece sobretudo transformar-se em compromisso. A memória de um antepassado ganha vida quando ajuda os que vieram depois a reconhecer o sofrimento alheio e a agir diante dele.
Que o novo governador conserve os ouvidos atentos ao interior. Que saiba quanto custa esperar por uma consulta, por uma estrada transitável, por uma escola em condições, por uma oportunidade de trabalho.
Que reconheça, atrás de cada número apresentado numa reunião, uma pessoa com nome, família e urgências.
O avô aproximava lugares com um avião.
Ao neto caberá aproximá-los por meio das decisões de governo.
E governar exigirá essa atenção constante a quem está longe: longe da capital, dos serviços, das oportunidades e dos gabinetes onde se decide o seu destino.
Fico com a imagem do velho comandante preparando mais uma partida.
Em algum ponto daquelas distâncias, alguém precisava dele. Havia uma rota a cumprir e uma vida à espera.
Que essa lembrança acompanhe o neto.
Que, nos dias difíceis do governo, entre papéis, pressões e compromissos, ele consiga ouvir o chamado que vinha da terra e fazia o avô levantar voo.
Porque a mais bela homenagem àquelas asas
será cuidar de quem continua
à espera de chegar.
É o meu desejo, como ex-piloto e tocatinense de coração.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





