Há denúncias que nos obrigam a interromper o dia. A pousar a chicara sobre a mesa. A perguntar em que abismo estamos a cair para que a água de uma comunidade indígena possa sequer ser imaginada como instrumento de vingança política.
A denúncia de envenenamento precisa de investigação urgente e rigorosa. Se confirmada, exige responsabilização de todos os envolvidos, com provas, julgamento e as consequências previstas na lei.
A vida de uma aldeia não pode ficar à espera de que a indignação passe e o assunto desapareça das redes.
Estamos a falar de água.
Daquilo que uma mãe oferece ao filho quando ele tem sede. Daquilo com que se prepara a comida, se toma um remédio, se sustenta a vida.
Transformar essa confiança em ameaça seria uma crueldade sem tamanho.
E, se a motivação tiver sido o voto dessas comunidades, estaremos também diante da tentativa de castigar seres humanos pelo exercício da sua liberdade.
Ninguém deve um voto ao patrão, ao proprietário da terra, ao pastor ou ao vizinho. A urna não é propriedade de quem tem dinheiro. O voto de uma pessoa indígena tem a mesma dignidade do voto de qualquer outro cidadão.
É precisamente nesses momentos que as palavras precisam de prestar contas aos atos.
Deus. Pátria. Família.
Onde está Deus quando se despreza a vida do próximo? Onde está a pátria quando os seus povos originários são tratados como inimigos?
Onde está a família quando só se reconhece o sofrimento das crianças da própria casa?
Que cristianismo é esse que fala de amor e tolera a perseguição? Que oração consegue atravessar os lábios de quem deseja sofrimento a uma comunidade porque ela escolheu outro candidato?
O próximo também vive numa aldeia. Também tem outra crença. Também vota diferente. E continua a ser próximo quando a sua escolha nos contraria.
Ser cristão exige que o amor anunciado encontre lugar na conduta. Defender a democracia exige aceitar que o outro tenha voz, direitos e liberdade para nos derrotar nas urnas.
Podemos discutir governos, rejeitar partidos, criticar presidentes. Essa liberdade pertence a todos. Mas nenhuma divergência autoriza alguém a ameaçar a água, a comida, a casa ou os filhos de outra pessoa.
Por isso, repudio qualquer tentativa de intimidar comunidades indígenas. Exijo que esta denúncia seja esclarecida com seriedade. E, comprovado o crime, que a riqueza ou a influência dos responsáveis não lhes compre impunidade.
Há uma humanidade que precisamos de defender antes que o ódio nos ensine a achar tudo normal.
Ela começa no gesto de reconhecer que uma criança com sede tem direito a beber água em segurança, seja qual for o voto dos seus pais.
Quem proclama “Deus, Pátria e Família” tem de responder pela vida que ajuda a proteger — e pelo sofrimento que escolhe tolerar.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.
Redação
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