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CRÔNICAS DO PORTELINHA | A literatura não pode estar aquém nem além da política

Redacao
Ultima atualização: 2026/08/03 at 7:05 PM
Por Redacao
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CRÔNICAS DO PORTELINHA | A literatura não pode estar aquém nem além da política
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Há um lugar-comum resistente nos círculos literários: o de que o escritor, para ser fiel à arte, deve manter-se à distância da política. A fórmula é sedutora — promete pureza estética, autonomia, imunidade às contaminações do tempo —, mas esconde uma ilusão perigosa.

O escritor não pode estar aquém da realidade social, como se a linguagem que habita fosse neutra; mas também não pode estar além dela, sob o risco de transformar a literatura em panfletos.

Entre esses dois abismos, abre-se o campo próprio da literatura: um espaço de conhecimento sensível do mundo, onde a forma e a experiência histórica se entrelaçam sem se anular.

O mito do escritor apolítico
A defesa de um escritor “apolítico” costuma apoiar-se em três argumentos recorrentes. O primeiro é a ideia de uma autonomia estética absoluta: a obra seria um reino à parte, regido apenas por leis internas de forma, estilo e coerência.

O segundo é o medo do panfleto: confunde-se qualquer presença do político com redução ideológica, como se a única alternativa à propaganda fosse o silêncio. O terceiro, mais sutil, é a neutralidade ilusória: apresenta-se a ordem existente como, e qualquer questionamento como “politização indevida”.

Antonio Candido, um dos mais importantes críticos brasileiros, desmonta essa separação radical. Em ensaios como “Literatura e sociedade” e “Literatura e vida social”, ele mostra que a obra literária é, ao mesmo tempo, sistema interno de formas e produto de condições sociais, históricas e institucionais.

A linguagem que o escritor usa, os temas que lhe parecem “naturais”, os públicos que o lêem, as editoras que o publicam — tudo isso já é política em sentido amplo. Recusar essa dimensão não torna o escritor mais puro; apenas o torna menos consciente das forças que o atravessam.

Jean-Paul Sartre, em “O que é a literatura?”, vai mais longe: para ele, escrever é assumir uma situação histórica e dirigir-se a outros seres livres.

O engajamento, em Sartre, não é obediência a um partido, mas reconhecimento de que a palavra tem consequências no mundo e de que o silêncio também é uma forma de intervenção. O escritor que finge estar “fora da política” muitas vezes está, sem o dizer, a favor da ordem que o beneficia.

Nem aquém, nem além: a literatura como forma de realidade

Dizer que o escritor não pode estar “aquém” da realidade social é recusar um formalismo vazio, que trata a obra como jogo de recursos estilísticos desconectados da vida. A linguagem literária não é um código abstrato: ela nasce de conflitos, de hierarquias, de experiências de classe, gênero, raça, território. Ignorar isso é empobrecer a própria compreensão da forma.

Dizer que não pode estar “além” é recusar a tentação de transformar a literatura em instrumento de doutrinação.
A força da ficção não está em emitir teses, mas em encarnar contradições em personagens, situações, vozes e linguagens. Como observam ensaios sobre literatura e política, a obra que “sabe demais”, que fecha o sentido em uma moral pronta, tende a perder a complexidade que a faz literatura.

A literatura, assim, é uma forma específica de conhecimento do social. Ela não substitui a sociologia, o jornalismo ou o direito; oferece outra via de acesso ao mundo. Onde o discurso científico generaliza, a ficção singulariza; onde o discurso político frequentemente simplifica, a literatura mantém zonas de indeterminação que obrigam o leitor a pensar.

É nesse intervalo que a literatura fala da realidade sem se reduzir a ela.
Ficção e política: como a realidade entra na obra
Mesmo quando não trata diretamente de eleições, partidos ou leis, a ficção fala da política do cotidiano.

O político aparece:
Na distribuição de vozes: quem pode narrar? De onde se fala? Quem tem acesso à consciência dos outros e quem é reduzido a objeto do olhar alheio? Essas escolhas formais revelam hierarquias sociais.

Nos conflitos representados: disputas de poder em famílias, escolas, empresas, comunidades são microcosmos de estruturas maiores de classe, gênero, raça.

Na linguagem: o modo como os personagens nomeiam o mundo, os estereótipos que repetem ou subvertem, as línguas e variedades que entram ou são expulsas do texto — tudo isso é política da linguagem.

O escritor que quer “falar da realidade” sem cair no panfleto pode trabalhar com alguns princípios:

Mostrar em vez de afirmar: encarnar teses em destinos, gestos, diálogos, silêncios.
Trabalhar a forma:

usar a estrutura narrativa (foco narrativo, tempo, ritmo) como modo de pensar o mundo, não só como ornamento.
Preservar a ambiguidade: evitar certezas morais fechadas; deixar espaços para que o leitor exerça sua liberdade de interpretação.

Posições de escritores e críticos sobre o tema
A discussão sobre o papel político do escritor não é nova, e vários nomes centrais da literatura e da crítica se posicionaram de modo explícito.

Antonio Candido recusa tanto a visão que reduz a obra a reflexo mecânico da sociedade quanto a que a isola como objeto puro de forma. Para ele, a literatura é um “sistema de signos” que se constitui em interação dialética com a vida social: é moldada por ela e, ao mesmo tempo, a interpreta e a critica.

O escritor, nessa perspectiva, não precisa ser militante partidário, mas não pode ignorar que sua prática é socialmente situada.

Jean-Paul Sartre defende uma literatura “engajada”, mas não no sentido de submissão a doutrinas. Escrever, para ele, é revelar o mundo aos outros e, ao fazê-lo, assumir responsabilidade pelas consequências dessa revelação.

O silêncio do escritor diante da opressão já é uma forma de cumplicidade. A liberdade da escrita implica, paradoxalmente, um dever perante a liberdade dos outros.

Muitos escritores modernos e contemporâneos, ao recusarem o rótulo de “escritores militantes”, não negam a dimensão política de suas obras; apenas recusam a redução da literatura a instrumento de agitação.

Ensaios recentes sobre literatura e política mostram que é possível manter a autonomia estética sem pretender neutralidade: a obra pode ser formalmente sofisticada e, ao mesmo tempo, profundamente atenta às fraturas do seu tempo.

Essas posições, longe de se anularem, ajudam a delimitar o território em que o escritor pode mover-se com integridade: nem recuado num formalismo indiferente, nem transformado em porta-voz de slogans.

O escritor no mundo: uma ética da forma

O papel do escritor, então, não é dar respostas prontas, nem oferecer conselhos morais, nem defender programas de governo. É, antes, tornar visíveis, sensíveis e pensáveis as contradições do tempo. Isso exige uma ética da forma: cuidado com a linguagem, com a estrutura, com o ritmo, mas também coragem para não fechar o sentido em certezas confortáveis.

Um escritor que se recusa a estar “aquém” da realidade social não precisa transformar cada página em manifesto. Basta que não finja que a linguagem é neutra, que os temas escolhem-se no vácuo, que os silêncios não têm custo.

Um escritor que se recusa a estar “além” da política não precisa transformar cada personagem em alegoria partidária. Basta que não sacrifique a complexidade humana em nome de uma moral fechada.

No intervalo entre esses dois excessos, a literatura encontra sua força: como espaço em que a forma pensa o mundo, e o mundo se deixa pensar pela forma.

É aí que o escritor cumpre, de modo mais fiel, seu papel: não como arauto de verdades, mas como artesão de experiências que obrigam a ler — e, ao ler, a ver de outro modo o chão em que se pisa.


JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.

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