Há muitos anos tenho um amigo que gosta de provocar-me
De vez em quando pergunta-me:
— Portelinha, quantos países conheces?
E eu, obedientemente, começo a fazer a viagem de memória.
Angola, Brasil, Portugal, Espanha, França, Grécia, Bulgária, Alemanha, Rússia, Cabo Verde, Holanda, Bélgica, os dois Congos, Áustria, Ucrânia, Cuba…
e vou desfiando países, continentes, aeroportos, fronteiras, cidades, estações ferroviárias e pedaços do mundo por onde a vida me foi levando.
Ele escuta pacientemente.
Quando percebe que a lista começa a ficar comprida demais, interrompe-me, dá aquela risada de quem preparou a armadilha e diz:
— Portelinha, desculpa. Fiz mal a pergunta. Em vez de perguntar quais países conheces, devia ter perguntado quais são os países que ainda não conheces!
Rimo-nos sempre.
Mas, nestes últimos dias, acompanhando as notícias brasileiras relacionadas com Daniel Vorcaro e o Banco Master, lembrei-me inevitavelmente do meu amigo.
Porque começo a desconfiar de que também estamos fazendo a pergunta errada.
Perguntamos:
Quem se relacionava com Vorcaro?
Aparece um nome.
Depois outro.
E mais outro.
Um encontro aqui.
Uma conversa acolá.
Um jantar.
Uma mensagem.
Uma relação profissional.
Um intermediário.
Uma autoridade mencionada.
Um político citado.
Um empresário lembrado.
Um magistrado que aparece nas notícias.
Outro que precisa explicar determinada circunstância.
E, quando pensamos que terminou a lista, a imprensa abre mais uma página do caderno de contactos.
Reportagens recentes descrevem relações e contactos do antigo controlador do Banco Master alcançando personagens de diferentes espaços institucionais, inclusive integrantes do Judiciário e da política nacional.
Foi então que ouvi, dentro da minha cabeça, a voz daquele meu amigo:
— Portelinha, estou novamente fazendo a pergunta errada!
Talvez esteja.
Talvez, diante da sucessão de revelações, a pergunta irônica já não seja:
— Quem está envolvido com Vorcaro?
Mas:
— Quem NÃO está?
Calma!
Antes que alguém me processe, esclareço: trata-se de uma pergunta de cronista, não de delegado.
Porque conhecer não é delinquir.
Encontrar alguém não é participar de crime.
Receber uma mensagem não significa concordar com ela.
Ser citado num telefone, numa conversa ou num relatório também não transforma ninguém automaticamente em culpado.E esta diferença precisa ser preservada.
Aliás, o próprio Supremo informou que, em uma das discussões recentes relacionadas ao Caso Master, o mérito sequer havia sido examinado quando o julgamento foi suspenso por pedido de vista.
Mas há outra questão.
Quando um personagem privado consegue estabelecer relações tão extensas pelos corredores do poder, a sociedade tem o direito democrático de perguntar como funcionam as portas desse poder.
Quem entra?
Quem apresenta quem?
Quem telefona para quem?
Onde termina uma relação social perfeitamente legítima e onde começaria, caso exista, uma relação incompatível com o interesse público?
Isso quem deve responder são as investigações, mediante provas, contraditório e devido processo legal.
O cronista faz outra coisa.
O cronista olha para o cenário e estranha.
E às vezes o espanto produz humor.
No meu caso, produziu a lembrança daquele amigo que descobriu que perguntar pelos países que conheço dava trabalho demais.
Com Vorcaro, talvez esteja acontecendo algo parecido.
A lista das pessoas mencionadas nas notícias ficou tão extensa que a pergunta parece ter mudado de direção.
É como chegar a uma grande festa e perguntar:
— Quem foi convidado?
E alguém responder:
— Meu amigo, será mais rápido descobrir quem ficou em casa.
Há, porém, uma diferença fundamental.
As minhas viagens deixaram carimbos no passaporte.
As viagens de um homem pelos corredores do poder podem deixar perguntas nas instituições.
E democracia saudável não deve ter medo de perguntas.
Nem de investigar.
Nem de absolver quem nada fez.
Nem de responsabilizar quem eventualmente tenha praticado ilegalidade.
Porque investigação séria não pode começar escolhendo culpados.
Deve começar procurando factos.
Seja no Executivo.
Seja no Legislativo.
Seja no Judiciário.
Seja no Ministério Público.
Seja no mercado financeiro.A toga não pode servir de escudo.
O mandato não pode servir de escudo.
A riqueza não pode servir de escudo.Mas a suspeita também não pode substituir a prova.
No Estado de Direito há uma distância imensa entre “conhecer”, “ser citado”, “ter relação” e “cometer um crime”.
Misturar essas quatro coisas seria tão injusto quanto ignorar fatos que mereçam esclarecimento.
Por isso continuo ouvindo meu velho amigo:
— Portelinha, eu fiz a pergunta errada!
Talvez ele tenha razão.
Depois de tantas manchetes, encontros, mensagens, relações, explicações e personagens, já não sei se devo perguntar:
— Quem conhece Daniel Vorcaro?
Talvez a pergunta mais curta seja:
— Por favor, levante a mão quem NÃO conhece.
E tenho a impressão de que, por alguns segundos, Brasília ficaria olhando para os lados…
antes de alguém ter coragem de levantar a mão.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





