PROSEMA
Há uma diferença entre tomar a palavra e responder. Pode-se falar durante minutos e deixar uma pergunta exactamente onde ela estava: à espera.
Ao acompanhar o debate, fiquei com a impressão de que Flávio Bolsonaro contornava as perguntas, sem oferecer as respostas que eu esperava ouvir. E isso levou-me a uma questão maior: para que serve um debate quando as respostas não comparecem?
Também me chamou a atenção a sua proximidade física de Lula. Aos meus olhos, aquela postura parecia uma tentativa de intimidar. Não posso afirmar qual era a sua intenção, mas posso dizer como recebi a cena:
Senti que o espaço da argumentação estava a ser ocupado por uma pressão corporal desnecessária.
A distância entre dois candidatos não devia ser medida pelos passos que um dá na direcção do outro, mas pela qualidade das propostas que apresentam ao país.
Aproximar-se do adversário não esclarece uma política de saúde. Fixar-lhe o olhar não explica como melhorar a educação. O corpo pode avançar enquanto o argumento permanece parado.
E o eleitor continua à espera…
Imagino a pergunta sobre a saúde sentada à porta de um hospital. A da educação, numa carteira sem professor. A do emprego, de currículo na mão. Nenhuma delas precisa de um espectáculo. Precisam de propostas que se possam compreender, discutir e cobrar.
O eleitor tem o direito de saber como se pretende governar a sua vida. Que prioridades serão escolhidas?
Que compromissos serão assumidos?
De onde virão os recursos para o “Ministério da Prosperidade”?
Quem suportará os sacrifícios?
Essas perguntas têm endereço. Moram na casa de quem conta moedas para comprar comida, de quem espera uma consulta, de quem teme pelo futuro dos filhos.
Por isso, incomoda-me a palavra que dá voltas e regressa ao ponto de partida sem trazer uma resposta. Incomoda-me também quando a encenação ameaça tomar conta do encontro.
O tempo do candidato termina; a aflição de quem perguntou continua.
A firmeza de um candidato revela-se na capacidade de sustentar o que diz, de explicar o que propõe e de ouvir aquilo que o incomoda. Um debate exige coragem para enfrentar perguntas, inclusive aquelas para as quais não se preparou uma frase de efeito.
Quem deseja exercer a Presidência precisa de saber conviver com a contestação. Encontrará jornalistas insistentes, cidadãos indignados, adversários exigentes e problemas que não recuam diante de uma postura corporal.
Aplica-se a mesma exigência a qualquer candidato, seja qual for a sua bandeira. Quem pede confiança precisa de oferecer razões. Quem apresenta promessas precisa aceitar perguntas.
Os eleitores, precisam de escutar para além dos aplausos. Até o candidato da nossa preferência nos deve explicações. A simpatia política não pode dispensar ninguém do dever de responder.
Naquela cena, eu queria ouvir propostas. Queria que cada pergunta encontrasse uma resposta suficientemente clara para acompanhar o eleitor até à urna.
Porque, quando a pergunta fica sozinha no palco, é o cidadão que volta para casa sem resposta.
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JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





