PROSEMA
Uma imagem circula pelas redes com uma advertência sobre o dia em que a inteligência será desprezada e a estupidez receberá aplausos.
Detive-me diante dela.
Não sei se aquelas palavras pertencem a Saramago.
E seria estranho começar uma defesa da verdade atribuindo a alguém uma frase cuja origem não consegui confirmar.
Mas a inquietação ficou comigo.
Que acontece a uma sociedade quando perguntar se torna uma afronta, estudar desperta desconfiança e admitir um erro parece uma derrota?
A inteligência não vive apenas nas universidades. Conheci mulheres que nunca se sentaram numa sala de aula e sabiam medir a justiça pelo tamanho da fome dos filhos. Conheci camponeses que liam o céu e percebiam, no comportamento de um homem, a tempestade que ele trazia.
Também conheci gente instruída capaz de usar o conhecimento para enganar.
O diploma não absolve ninguém da responsabilidade de pensar. E a falta dele não retira a ninguém a dignidade de compreender.
A estupidez que me preocupa é aquela que se fecha por dentro: recebe uma prova e recusa olhar; descobre uma mentira e continua a espalhá-la porque ela favorece o seu lado.
É aqui que o meu pensamento chega ao Brasil.
Neste tempo eleitoral, até circulou um áudio falso a anunciar dias diferentes de votação para apoiantes de candidatos distintos. Houve quem tentasse transformar uma informação elementar — quando votar — numa armadilha contra o próprio eleitor.
Penso no telefone que vibra à mesa. Na mensagem enviada por um amigo. Na confiança que temos em quem a encaminhou. E no instante em que o dedo avança mais depressa do que a pergunta:
Será verdade?
Uma mentira pode atravessar uma família inteira antes de alguém interromper o caminho.
Depois, chega à rua, entra na conversa do trabalho, senta-se ao lado de uma pessoa na fila do autocarro. Já não parece uma invenção. Parece uma coisa que toda a gente sabe.
E é sobre essa falsa certeza que alguém nos pede um voto.
Não considero menos inteligente quem escolhe um candidato diferente do meu. A democracia exige que reconheçamos ao outro o mesmo direito de escolha que reclamamos para nós.
Mas esse respeito não me obriga a aceitar a fraude da palavra.
Posso discutir propostas. Posso reconhecer um acerto num adversário. Posso cobrar de quem apoio. O que não devo é entregar a minha consciência a uma fidelidade que me proíba de enxergar.
Quando o meu candidato erra, o erro não muda de natureza por ser dele.
Quando o adversário diz uma verdade, ela não deixa de ser verdade por vir da sua boca.
Se perdemos essa capacidade, deixamos de conversar sobre o país. Passamos apenas a defender o nosso grupo, mesmo quando ele nos conduz contra aquilo de que precisamos.
A escola, o hospital, o salário, a comida à mesa e a liberdade de falar merecem mais do que uma disputa de insultos.
Merecem perguntas. Exigem respostas. Precisam de cidadãos que possam mudar de opinião sem serem tratados como traidores.
Como professor, preocupo-me com o desprezo pelo conhecimento. Como antigo combatente, conheço o peso das palavras que preparam a hostilidade.
Como cidadão, recuso a ideia de que seja preciso odiar alguém para amar um país.
Não quero uma sociedade onde todos pensem como eu.
Quero uma sociedade onde ninguém precise de renunciar ao pensamento para pertencer.
Talvez a defesa da inteligência comece com um gesto pequeno: não partilhar o que ainda não verificámos. Ou com uma coragem maior: corrigir publicamente a mentira que nós mesmos ajudámos a espalhar.
Há dignidade nesse recuo.
Há futuro nessa honestidade.
E há uma liberdade que nenhum dirigente deveria receber de nós:
o direito de pensar em nosso lugar.
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JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





