Ao ingressar no curso de Administração da Universidade Católica de Brasília, em 1978, o Brasil vivia sob a ditadura militar e a ideia de República ainda era mais promessa do que realidade. Naquele contexto, a Administração se apresentava como uma ciência capaz de organizar o caos, dar racionalidade ao improviso e construir caminhos onde o País insistia em erguer muros.
Em 1982, ao receber meu registro profissional no Distrito Federal, percebi que carregava mais do que um título: assumia uma responsabilidade. Administrar, naquele momento, era quase um ato de resistência — significava acreditar na força das instituições, na transparência dos processos e na obrigação do Estado de servir ao cidadão.
Essa convicção me acompanhou anos depois, quando participei da implantação do Estado do Tocantins e, consequentemente, do CRA-TO, já sob a República inaugurada pela Constituição de 1988. O Tocantins nascia como unidade federativa, enquanto eu amadurecia como profissional, agora como primeiro Conselheiro Federal do novo estado. Era um período de reconstrução nacional, marcado por esperança e abertura. A Administração Pública ganhava novos contornos e exigências.
Hoje, ao celebrar o Dia do Administrador, percebo que essa trajetória se entrelaça com a história recente do Brasil — um período de rupturas, reinícios e crises que continuam a testar nossas instituições.
Crises expõem fragilidades e reacendem alertas
A crise envolvendo o Banco Master, que revelou falhas de governança e acendeu alertas no sistema financeiro, não surpreende quem acompanha a profissão desde o final dos anos 1970. O País vive ciclos de instabilidade que cobram caro das instituições — embora o tamanho do rombo e suas entranhas chamem atenção.
Da mesma forma, as turbulências recentes no Supremo Tribunal Federal reacendem a desconfiança entre poderes, um fantasma recorrente na história brasileira e que tantas vezes abriu portas para rupturas. Esses sinais não são apenas manchetes: são alertas de que o modelo institucional pode estar chegando ao limite.
O debate inevitável: estaria a República de 1988 se esgotando?
A pergunta não é feita com leviandade. É fruto da experiência de quem viveu a transição da ditadura para a democracia, a construção do pacto constitucional de 1988 e o clima de esperança que marcou o início dos anos 1990.
Como mostram as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: Uma Biografia, as repúblicas brasileiras não acabam de forma abrupta. Elas se desgastam, se esgotam e perdem a capacidade de responder às demandas sociais.
Foi assim com a Primeira República, encerrada pela Revolução de 1930. Foi assim com a Segunda República, interrompida pelo golpe de 1964. Foi assim com o regime militar, que ruiu diante da incapacidade de se renovar.
A Constituição de 1988 representou uma ruptura necessária e virtuosa. Mas nenhuma ordem institucional é eterna.
A polarização política, a fragilidade econômica, a crise de confiança e os conflitos entre poderes indicam sinais de esgotamento — não da democracia, que deve ser preservada, mas do modelo político-institucional construído desde 1988.
O papel do administrador em tempos de incerteza
Ao longo de quase cinco décadas de profissão, aprendi que administradores são testemunhas privilegiadas da história. Somos os primeiros a sentir os impactos das crises, a perceber quando processos deixam de funcionar, quando instituições perdem eficiência e quando o Estado se torna pesado demais para se mover.
Nesses momentos, cabe ao administrador atuar como guardião da racionalidade: manter organizações funcionando, reforçar governança e ética, sustentar políticas públicas, preservar a lógica onde a política tenta impor improviso e construir pontes quando muitos insistem em erguer abismos.
O compromisso do administrador precisa ser, antes de tudo, com o Brasil.
Ao celebrar o Dia do Administrador, olho para o futuro — e ele exige coragem. Se estamos vivendo o fim de um ciclo, que o próximo seja construído com responsabilidade, diálogo e maturidade institucional. E que os administradores estejam, como sempre, na linha de frente dessa construção.
EDSON CABRAL
É administrador, especialista em Gestão Pública, cineasta e documentarista.





