Existe uma pergunta que o Tocantins precisa ter coragem de fazer: quando uma tonelada de soja, milho, algodão ou carne deixa o Estado, quanto da riqueza que ela poderia gerar também vai embora?
O Tocantins já provou que sabe produzir. Agora precisa provar que sabe transformar.
O mundo está entrando em uma nova era, na qual alimentos, energia, tecnologia, logística e capacidade industrial também representam poder. É nesse contexto que ganha força o conceito de “Soberania Industrial do Agro”: não significa fechar a economia ou deixar de exportar. Significa ter capacidade de decidir como, quando e quanto valor queremos agregar ao que produzimos.
Produzir soja é importante. Transformá-la em óleo, biodiesel e proteína animal é outra coisa. Produzir milho é importante. Transformá-lo em etanol, ração e alimentos é outra. Criar gado é importante. Industrializar a cadeia da proteína, do couro e de seus derivados é muito mais estratégico.
É aí que está uma das maiores oportunidades do Tocantins.
Nossa localização privilegiada e nossa infraestrutura logística podem fazer do Estado muito mais que um corredor por onde passam caminhões e trens. Podemos ser o lugar onde a riqueza é transformada.
Para isso, precisamos pensar grande e construir uma estratégia de longo prazo: um Tocantins Agroindustrial 2035, como política de Estado, capaz de atrair indústrias, ampliar a armazenagem, fortalecer a agroindústria, desenvolver biocombustíveis, formar mão de obra qualificada e criar um ambiente favorável à inovação.
E há uma nova fronteira que não podemos ignorar: a tecnologia.
Drones, sensores, inteligência artificial, automação, satélites, softwares, máquinas inteligentes e biotecnologia já estão transformando o campo. Por que o Tocantins precisa importar todas essas soluções? Por que não podemos desenvolver parte delas aqui, criando um verdadeiro ecossistema AgroTech, reunindo produtores, empresas, universidades, centros de pesquisa, startups e investidores?
O Tocantins tem terra, água, produção, energia, biodiversidade, localização estratégica e espaço para crescer. Mas talvez nosso maior desafio não seja a falta de recursos. Seja a falta de ambição estratégica.
Não precisamos abandonar aquilo que sabemos fazer. Precisamos fazer mais com aquilo que já sabemos fazer.
O grande salto do Tocantins não acontecerá apenas quando produzirmos mais soja, milho ou carne. Ele acontecerá quando decidirmos transformar parte dessa produção em indústria, tecnologia, conhecimento, empregos e riqueza dentro das nossas próprias fronteiras.
O Tocantins nasceu como um Estado novo. Temos, portanto, uma vantagem extraordinária: ainda podemos escolher o que queremos ser.
A pergunta para os próximos dez anos não deve ser apenas quanto vamos produzir.
A pergunta estratégica é: quanto dessa produção continuará sendo matéria-prima e quanto dela será transformado em riqueza tocantinense?
Talvez esteja aí a próxima grande revolução econômica do nosso Estado.
E ela precisa começar agora.
TOM LYRA
Foi vice-governador do Tocantins; secretário de Indústria, Comércio e Serviços e ex-secretário de Turismo e Cultura do Estado; ex-presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico e dos Conselhos de Turismo e Cultura do Tocantins; secretário de Desenvolvimento Econômico e secretário de Turismo de Palmas; presidente do Conselho Municipal de Turismo de Palmas; secretário de Indústria, Comércio, Agricultura e Meio Ambiente de Gurupi e presidente da Agência de Mineração do Estado do Tocantins. Atualmente é presidente da Agência Tocantinense de Regulação (ATR).
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