No dia 6 de janeiro de 2027, Vicentinho Júnior assume o Governo do Tocantins. Entre as muitas escolhas que fará, poucas terão tanto peso quanto a de quem comandará a Seduc. Não se trata apenas de preencher um cargo. Trata-se de decidir se a escola pública tocantinense continuará andando em círculos ou se, enfim, terá rumo.
Os números não deixam margem para otimismo fácil. No Ideb 2025, divulgado em agosto, o Tocantins ficou abaixo da média nacional em todas as etapas. Na rede pública, os anos finais chegaram a recuar, de 4,8 para 4,7, e o ensino médio ficou parado em 4,1. Em outras palavras: nossas crianças e jovens aprendem menos do que poderiam, e há etapas em que simplesmente não avançamos.
Há ainda um dado que diz muito sobre a forma como o Estado trata quem ensina. Segundo levantamento feito com base em dados do Inep, cerca de 79% dos professores da rede estadual do Tocantins são temporários, contra uma média nacional de 51,6%. Uma rede em que quatro em cada cinco docentes não têm estabilidade, carreira nem garantia de continuidade dificilmente consegue construir projetos pedagógicos duradouros.
Para entender o tamanho do desafio, é preciso olhar para trás. As duas últimas gestões da pasta foram distintas no estilo, mas semelhantes nos péssimos resultados. A professora Adriana Aguiar assumiu a Secretaria em janeiro de 2014, no governo Siqueira Campos, e voltou ao cargo na gestão de Mauro Carlesse. Sua passagem ficou marcada, na memória da categoria, pelo fechamento do diálogo com o sindicato e por um projeto que desvalorizou profissionais enquanto a estrutura das escolas se deteriorava.
Na gestão Wanderlei Barbosa, assumiu outro servidor de carreira, o professor Fábio Vaz. Ele prometeu percorrer o estado ouvindo os professores e entregar um Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração que mudaria a vida do docente da noite para o dia. Quatro anos depois, deixou a pasta, em abril de 2026, para disputar uma vaga na Câmara Federal, e foi eleito com mais de 64 mil votos, obtidos nos 139 municípios do estado. Para a sua trajetória política, o êxito é inegável. Para o professor, o saldo foi um PCCR, aprovado em novembro de 2025, muito aquém do prometido, que mantém a educação entre as carreiras menos valorizadas do Executivo estadual. Direitos previstos no próprio plano, como o descanso de voz, seguem sem sair do papel.
De um lado, uma gestão fechada à escuta. De outro, uma gestão de sorrisos e promessas que não se concretizaram. O Tocantins precisa agora de algo diferente de ambas.
Precisa, antes de tudo, de uma gestão com visão técnica, que tome decisões com base em evidências e no conhecimento acadêmico acumulado sobre aprendizagem, gestão escolar e carreira docente, e não em conveniências políticas. Precisa de uma gestão humana, capaz de enxergar o adoecimento que hoje atravessa a categoria e de tratá-lo como problema de Estado, e não como fraqueza individual ou falta de motivação.
Precisa, também, de uma gestão que não use a Secretaria como instrumento de projetos pessoais. Isso passa por desfazer a lógica de inchar a estrutura administrativa da Seduc e de seus anexos retirando professores efetivos da sala de aula, justamente numa rede em que eles já são minoria. Lugar de professor efetivo é, prioritariamente, junto aos estudantes.
Urge, ainda, revisar a organização curricular do ensino médio diante das mudanças do Novo Ensino Médio, fortalecendo os componentes da formação geral básica, estruturantes para a aprendizagem, em detrimento dos itinerários formativos. É igualmente urgente pôr fim à pressão exercida sobre os professores em favor da aprovação automática, inclusive de estudantes que não frequentam a escola. Essa prática tem desmotivado os alunos e contribuído para o adoecimento de muitos educadores, que percebem que a rede estadual, não raro, utiliza o sistema apenas como ferramenta burocrática de aprovação em massa, sem o devido acompanhamento pedagógico. Aprovar sem ensinar não é inclusão; é apenas adiar a exclusão.
E precisa, sobretudo, colocar o professor no centro. Isso significa valorizar quem está no chão da escola, desburocratizar o seu dia a dia, liberar tempo para planejar e estudar, e ouvir de verdade quem há anos critica, com fundamentos, os rumos da educação estadual. Nenhuma política educacional dá certo se for pensada longe da sala de aula.
A tarefa de quem for escolhido pelo governador Vicentinho não será fácil. Exigirá capacidade técnica, densidade intelectual e, principalmente, disposição para o diálogo, qualidades que conquistam o respeito da categoria e da sociedade. Mas há uma boa notícia: os professores do Tocantins estão sedentos por contribuir. Querem uma gestão que reme junto com eles, rumo a uma educação de qualidade para os nossos estudantes e à valorização que o trabalhador em educação merece.
Fábio Lopes é professor de Ciências e Biologia nas redes públicas de Palmas, mestre em Ensino de Biologia pelo PROFBIO/UnB e ex-presidente do Sintet Regional Palmas.





