Um grande evento musical pode representar muito mais do que entretenimento. Quando milhares de pessoas se deslocam para uma cidade para participar de um show, ocorre um fenômeno econômico relevante, a atração temporária de renda externa e sua posterior circulação na economia local. É a chamada economia criativa.
É exatamente sob essa perspectiva que podemos analisar o “Henrique & Juliano em Casa.” Ao receber visitantes de outros municípios e estados, Palmas transforma-se, durante alguns dias, em um polo temporário de atração de renda. O impacto econômico do evento, portanto, não se limita ao valor arrecadado com a venda de ingressos. A questão central é compreender quanto dinheiro novo entra na cidade, quanto permanece na economia local e como esses recursos circulam entre empresas, trabalhadores e consumidores.
Do ponto de vista econômico, o primeiro elemento a ser observado é a entrada de recursos provenientes de outras localidades. Um visitante que vem a Palmas para o evento traz consigo uma renda que, na ausência do show, poderia ser gasta em outra cidade. Ao permanecer na capital, esse recurso é direcionado para hotéis, restaurantes, transporte, combustíveis, comércio, serviços e, naturalmente, para o próprio evento.
Cada gasto representa, inicialmente, uma receita para algum agente econômico local. Um hotel recebe do visitante e utiliza parte dessa receita para pagar funcionários, adquirir alimentos, contratar lavanderia, manutenção e outros serviços. Um restaurante compra de fornecedores e remunera seus trabalhadores. Um motorista de aplicativo recebe pela corrida e, posteriormente, utiliza parte de sua renda para abastecer o veículo, fazer manutenção, alimentar-se ou realizar outras compras.
Dessa maneira, o mesmo recurso pode gerar uma sequência de transações antes de deixar definitivamente a economia de Palmas. A hotelaria está entre os setores diretamente beneficiados. O aumento da demanda pode elevar as taxas de ocupação, ampliar o consumo de insumos, gerar horas extras e, dependendo da dimensão do evento, estimular a contratação temporária de trabalhadores. O impacto, contudo, ultrapassa os limites dos hotéis e alcança lavanderias, fornecedores de alimentos e bebidas, empresas de manutenção, serviços terceirizados e diversos outros segmentos.
Na gastronomia e na vida noturna, o efeito também pode ser significativo. Quem chega à cidade para assistir ao show precisa se alimentar, deslocar-se e, muitas vezes, permanece em Palmas por mais de um dia. Cafeterias, restaurantes, bares, lanchonetes e vendedores ambulantes passam a disputar uma parcela dessa renda adicional.
O comércio e os serviços também podem capturar parte desse movimento. Lojas de roupas e calçados, salões de beleza, supermercados, lojas de conveniência e outros estabelecimentos podem registrar aumento da demanda, tanto por parte dos visitantes quanto dos moradores que participam do evento.
Outro segmento importante é o de transporte e mobilidade. Aplicativos, táxis, vans, ônibus e serviços de transporte particular enfrentam uma demanda extraordinária durante grandes eventos. A renda obtida pelos motoristas, por sua vez, pode retornar à própria economia local por meio do consumo de combustível, manutenção dos veículos, alimentação e outros gastos.
Assim, o show não movimenta apenas o setor de entretenimento. Ele aciona uma rede econômica muito mais ampla, por meio de efeitos diretos, indiretos e induzidos.
O efeito direto corresponde aos gastos realizados pelos visitantes, ingressos, hospedagem, alimentação, transporte e compras. O efeito indireto aparece quando os estabelecimentos beneficiados pelo aumento da demanda passam a adquirir mais bens e serviços de seus fornecedores. Já o efeito induzido ocorre quando trabalhadores e empresários que tiveram sua renda ampliada utilizam parte desses recursos para consumir outros bens e serviços.
É justamente essa sucessão de gastos que pode fazer com que o impacto econômico total seja superior ao desembolso inicial dos visitantes.
Entretanto, é importante fazer uma ressalva. Multiplicador econômico não significa que cada real gasto se transforme integralmente em novo PIB local. Parte dos recursos pode ser destinado à compra de produtos e serviços produzidos fora de Palmas, ao pagamento de tributos, à poupança ou à remuneração de empresas cujos lucros sejam transferidos para outras localidades.
Por isso, uma avaliação econômica rigorosa precisa distinguir conceitos como faturamento, valor adicionado, renda e efetivo aumento do PIB. O simples volume de vendas não é suficiente para determinar o impacto econômico líquido de um evento.
Grandes eventos também produzem efeitos sobre o mercado de trabalho. Segurança, limpeza, produção, montagem, logística, alimentação, transporte, atendimento e outros serviços demandam mão de obra adicional. Mesmo quando essas oportunidades são temporárias, elas representam geração adicional de renda para trabalhadores e prestadores de serviços.
Existe ainda uma dimensão fiscal. A ampliação das atividades econômicas pode contribuir para o aumento da arrecadação pública, especialmente por meio do ISS incidente sobre determinados serviços, além dos tributos associados ao consumo e à circulação de mercadorias.
Mas talvez exista um efeito menos visível e, no longo prazo, potencialmente mais importante, a construção da marca de Palmas como destino de grandes eventos.
Palmas possui atributos naturais e urbanos que podem ser incorporados a uma estratégia mais ampla de turismo de eventos. Um espetáculo de grande porte demonstra a capacidade da capital de receber milhares de visitantes, utilizar sua estrutura hoteleira e gastronômica, movimentar o setor de serviços e inserir-se em circuitos nacionais de entretenimento.
O verdadeiro desafio, portanto, é não enxergar o “Henrique & Juliano em Casa” apenas como um grande show. Um evento isolado produz um choque temporário de demanda. Já uma política permanente de eventos, articulada com turismo, cultura, gastronomia, comércio, hotelaria, infraestrutura e mobilidade, pode transformar esses choques temporários em uma estratégia recorrente de atração de renda e desenvolvimento econômico.
É nesse ponto que entra o planejamento econômico. Palmas precisa pensar não apenas em quantas pessoas um evento consegue reunir, mas também em quanto de renda externa ele consegue atrair, quanto permanece na economia local, quais setores são beneficiados, quantos empregos são gerados e quais investimentos podem ser estimulados a partir dessa movimentação.
O show termina. O palco é desmontado. Os artistas vão embora. Mas permanece uma pergunta econômica fundamental: quanto da riqueza gerada pelo evento continua circulando em Palmas depois que as luzes se apagam?
Essa é uma das dimensões centrais do efeito multiplicador. Grandes eventos podem ser, simultaneamente, entretenimento e instrumentos de desenvolvimento econômico. Para isso, porém, é necessário transformar a capacidade de atrair grandes públicos em uma estratégia mais permanente de atração de renda, negócios, investimentos e turistas.
No fim, a questão econômica não é apenas o tamanho do show. É o tamanho daeconomia que ele consegue movimentar e quanto dessa movimentação permanece em Palmas.
FRANCISCO VIANA CRUZ
É doutor em Economia e professor do IFTO
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