O Brasil de hoje, quando discute política, se enxerga como um país polarizado.
Muitos aspectos contribuíram para isso, não só no cenário brasileiro, mas em quase todo o mundo onde prevalecem regimes (mais ou menos) democráticos.
O principal deles é a internet, com a difusão massiva de informação e de desinformação, que acontece tanto de maneira orgânica, quando as pessoas repassam posts, memes e tudo o que aparece para sua rede de contatos, como de maneira estruturada e organizada, por grupos que desejam influenciar o debate e as opiniões de milhões de eleitores.
O ecossistema que existia no período em que poucos veículos dominavam a informação – jornais, emissoras de TV e de rádio -, onde uma editoria, escolhia (para o bem e para o mal) o conjunto de notícias que iriam circular, dessa maneira formando opinião entre seus leitores e espectadores, sofreu uma radical mudança, onde qualquer pessoa, com um smartphone simples, produz, publica e divulga a informação que desejar, com um nível muito baixo de controle.
É por isso que costumo dizer que 20 anos atrás quase todo mundo conseguia escalar a seleção brasileira de futebol e praticamente ninguém saberia dizer o nome de um ou dois ministros do STF. E que hoje é mais fácil o motorista de aplicativo em uma conversa, nominar o “escrete” do Supremo Tribunal Federal do que o do time canarinho.
A analogia futebolística não para por aí, pois a dita polarização, muitos dizem, transformou a política em uma espécie de Fla x Flu (acho o Gre x Nal mais adequado…), com times de devoção, paixões e as inevitáveis desavenças entre amigos e família.
De maneira genérica, o Gre x Nal, ou melhor, a polarização política, se configura na distribuição das pessoas entre a “direita” e a “esquerda”, com um limbo intermediário chamado de “independentes”, que muitas vezes são apelidados pelos dois lados de “isentões”.
Entretanto, desde 2018, essa divisão histórica que vem da Revolução Francesa (girondinos e jacobinos, etc etc) ganhou um novo desenho no Brasil.
Depois de mais de uma década de governos do PT, em que não houve renovação de lideranças e sim, uma espécie de “canonização” da figura de Lula da Silva entre seus admiradores, existem pessoas que, além de simpatizantes do que entendem como esquerda, se rotulam como “lulistas”.
No outro polo, a ascensão política de Jair Bolsonaro, personificando um conjunto heterogêneo de valores, que por muito tempo se viam sem voz, com matizes conservadores e convergência “à direita”, criou uma identidade comum e redutora, o “bolsonarismo”.
Assim, hoje temos “bolsonaristas”, “direitistas não-bolsonaristas”, “independentes”, “esquerdistas não-lulistas” e “lulistas”.
O instituto Quaest, em média aproximada, distribui esses posicionamentos no Brasil na forma de 31% de “bolsonaristas”, 20% de “direitistas não-bolsonaristas”, 29% de “independentes ou sem posição definida”, 4% de “esquerdistas não-lulistas” e 15% de “lulistas”.
Um Brasil em rápida definição, primordialmente conservador.
Mas e o Tocantins?
Entre 9 de setembro e 3 de outubro realizamos 10.258 entrevistas em 18 cidades tocantinenses e fizemos a mesma pergunta. Como você se posiciona politicamente?
A margem de erro de um levantamento desse tamanho é de 1% para 95% de confiança na amostra.
E o resultado que obtivemos é razoavelmente semelhante ao que a Quaest coletou. Mas também razoavelmente diferente.
Uma sociedade menos polarizada do que o debate sugere
No Tocantins, são 24% de “bolsonaristas”, 19% de “direitistas não-bolsonaristas”, 30% de “independentes ou sem posição definida”, 6% de “esquerdistas não-lulistas” e 21% de “lulistas”.
Comparando, mesmo confirmando que o campo à direita é preponderante, com 43% dos entrevistados, percebe-se que o campo à esquerda é mais presente que na média nacional, com 27% contra 19%. Os “independentes” compartilham o mesmo percentual de 29%, praticamente um em cada três tocantinenses aptos a votar.
A polarização existe, mas ela não esgota a realidade. Lulismo e bolsonarismo, juntos, reúnem 45% da amostra. Mesmo quando agregamos a direita não bolsonarista e a esquerda não lulista, ainda permanece um enorme contingente que não assume identidade política ou evita revelá-la. Isso não significa ausência de opinião, desinteresse ou neutralidade. Significa apenas que posição ideológica, preferência eleitoral e disposição para declarar publicamente uma identidade são fenômenos diferentes.
É mais interessante, entretanto, conhecer melhor esses grupos por dentro. Ao identificar, entre todos os entrevistados, as suas características demográficas (que, no conjunto da amostra, foram controladas e ponderadas para reproduzir, dentro dos parâmetros adotados, a composição demográfica de referência), como sexo, faixa etária, classificação socioeconômica, instrução e religião, podemos investigar se há características específicas em cada um desses grupos que nos permitam entender melhor quem são.
O lulismo mais popular, maduro e católico
Entre os lulistas, o traço mais evidente é a combinação de idade, renda, escolaridade e religião. O grupo apresenta a maior proporção de pessoas com 56 anos ou mais: 23%, diante de 16% no conjunto da amostra. Também concentra 34% dos entrevistados na menor faixa de renda (classe DE), contra 26% no perfil geral, e 29% com escolaridade até o ensino fundamental, comparados a 20% na base total.
A identidade religiosa reforça essa diferenciação. Os católicos representam 59% dos lulistas, nove pontos acima da média geral. Territorialmente, a Capital responde por 49% desse grupo e o Norte por 31%. O lulismo tocantinense aparece, portanto, associado a segmentos com mais idade e populares, com forte presença católica e importante concentração urbana na Capital.
O bolsonarismo e a presença evangélica
O perfil bolsonarista é menos envelhecido e mais escolarizado. Um quarto do grupo possui ensino superior, percentual superior aos 21% observados no total. Na renda, cresce a presença nas faixas intermediárias e superiores: 20% estão na classe C1 e 7% na C2.
A religião é a marca mais nítida. Os evangélicos chegam a 45% entre os bolsonaristas, contra 38% no perfil geral. Não se trata, evidentemente, de afirmar que o eleitor evangélico seja automaticamente bolsonarista. Os dados mostram outra coisa: dentro do grupo que se declara bolsonarista, a presença evangélica é proporcionalmente mais elevada.
Uma direita que existe para além de Bolsonaro
A direita não bolsonarista corresponde a 19% da base — um contingente expressivo demais para ser tratado como residual. É o grupo mais masculino, com 55% de homens, e o de maior escolaridade superior, com 28%. Também possui a menor presença na classe DE, apenas 18%, e concentra proporções acima da média nas rendas intermediárias.
Sua geografia é particularmente reveladora. Enquanto apenas 17% da amostra geral está no Sul, essa região reúne 31% da direita não bolsonarista. Já o Norte, que representa 28% do total, corresponde a apenas 13% desse grupo. Há, portanto, uma direita com características próprias, social e territorialmente diferenciada.
A esquerda não lulista é menor, jovem e mais secular
A esquerda não lulista reúne 6% dos entrevistados e deve ser analisada com maior cautela por possuir a menor base entre os segmentos. Ainda assim, seu perfil apresenta coerência interna. É o grupo mais jovem: 47% têm até 35 anos, ante 41% na amostra geral. Um quarto possui ensino superior e 11% declara não ter religião, proporção consideravelmente maior que os 6,8% do conjunto.
Também chama atenção a presença de espíritas e de religiões de matriz africana, ambas com 4% nesse grupo. Os números absolutos são pequenos e não recomendam generalizações. Mas a direção dos resultados sugere uma esquerda mais jovem, escolarizada e secular, distinta do perfil social historicamente mais popular e católico do lulismo.
O território dos que não se definem
Os entrevistados sem posicionamento definido não estão distribuídos de maneira uniforme. Eles se concentram sobretudo no Norte, com 36%, e no Sul, com 29%. Apenas 19% estão na Capital, embora Palmas represente 33% da base geral. A faixa de renda mais comum é da classe C2, faixa que reúne 41% do segmento, e 60% possuem ensino médio.
O grupo que prefere não responder, por sua vez, é mais feminino: 55%. Também apresenta concentração relativa no Norte, com 34%, e maior presença de pessoas com escolaridade até o fundamental do que a média geral. A indecisão em declarar posição, portanto, também possui um perfil e não deve ser confundida automaticamente com desinteresse político.
O que esse cenário ensina
Os dados mostram que identidade política é uma variável socialmente estruturada. Região, idade, renda, escolaridade e religião não determinam mecanicamente uma posição, mas alteram as probabilidades de pertencimento e ajudam a explicar por que determinadas mensagens encontram maior ressonância em certos públicos.
Para campanhas, governos, partidos e instituições, a principal lição é evitar a comunicação baseada apenas na polarização nacional. Falar exclusivamente aos convertidos pode mobilizar núcleos identitários, mas deixa de alcançar uma parcela muito maior e mais heterogênea da sociedade. O eleitor sem rótulo não é um espaço vazio esperando ser preenchido. Ele possui referências locais, condições materiais, valores religiosos, experiências familiares e avaliações próprias.
Também é preciso reconhecer que os grupos não são espelhos perfeitos de seus líderes nacionais. Existe uma direita não bolsonarista com peso relevante e características próprias. Existe uma esquerda não lulista, menor, mas identificável. E existe um grupo relevante formado por pessoas que não desejam, não conseguem ou não consideram necessário se definir dentro dessas categorias.
Conclusão
O cenário político tocantinense revelado pela base final é menos binário do que aparenta. A polarização organiza o debate, mas não organiza sozinha o eleitorado. Lulistas e bolsonaristas constituem segmentos importantes; não constituem, porém, a totalidade nem mesmo a maioria absoluta das identidades declaradas.
Compreender o eleitor exige olhar além do voto e observar como território, religião, renda, escolaridade, idade e gênero se combinam. Esse é o valor de uma base ampla: ela permite sair da impressão e identificar estruturas. A política continuará produzindo polos. A sociedade, entretanto, permanece mais complexa do que eles.
HECTOR VALENTE FRANCO
É administrador e engenheiro com especialização em Marketing pela Esag, MBA pela Universidade Moderna de Lisboa (Portugal) e mestrado em Gestão Estratégica pela Fundação Íbero-Americana.





