A vida ensina umas coisas devagarinho. Outras, ensina de supetão, sem pedir licença nem saber se a gente está preparado. Uma delas é esta: nem sempre teremos razão. Outra, talvez mais custosa, é aprender a perder. Devia ser lição das primeiras, dessas ensinadas ainda menino, junto com amarrar o cadarço, pedir licença e repartir o pão. Porque quem cresce imaginando que a vida é feita somente de vitórias, certezas e argumentos vencidos chega à idade adulta despreparado para o essencial: reconhecer o erro, suportar a frustração, respeitar a escolha alheia. E democracia, penso eu, talvez seja justamente isso em tamanho coletivo: milhões de pessoas aprendendo, de quatro em quatro anos, que seu voto vale tanto quanto o do outro – e que, no fim das contas, alguém haverá de ganhar e alguém haverá de perder.
Era 4 de outubro de 2026. O dia começou às seis da manhã, em Cristalândia. Banho gelado no pequeno apartamento da Alameda João Pires Querido, desses que não despertam somente o corpo, mas também as ideias. A noite tinha sido curta, e o domingo já amanhecia prometendo cansaço. Mas há cansaços que pesam e há outros que dão sentido. Quem gosta do que faz conhece bem essa diferença. O corpo reclama no fim do dia, mas a alma não pede demissão.
Vesti a camisa da Justiça Eleitoral e saí com Everton, meu secretário. Antes de urna, processo, ocorrência ou decisão, havia um compromisso ainda mais urgente: café. Paramos naquela pequena padaria familiar de Cristalândia, onde mantenho há tempos meu ritual particular de abastecimento: bolo de mandioca – o melhor do Brasil, e disso não admito recurso -, duas broas e uma xícara topada de café amargo. Receita energética de juiz do interior. Talvez nutricionista algum a homologasse, mas a experiência já formou jurisprudência suficiente em meu favor.
Foi ali que encontrei João do Arroz. O apelido já lhe resume o ofício. Gambireiro da região, homem de comprar e vender grãos, desses que aprenderam economia antes nos armazéns do que nos livros. Veio de família humilde, enfrentou as dificuldades sem permitir que elas lhe servissem de desculpa. Ganhou dinheiro, continua ganhando, mas conserva o jeito de quem sabe quanto custa cada conquista. Entre um gole e outro de café, conversamos sobre a economia do país, as dificuldades do setor agrícola e a eleição presidencial. Nada solene. Nenhuma tese definitiva. Conversa curta, agradável, dessas que acontecem nas padarias e que, às vezes, explicam o Brasil melhor do que muito relatório engravatado.
Seguimos para o Cartório Eleitoral. E o primeiro problema do dia já estava à nossa espera: violação da Lei Seca, prisão em flagrante. A Justiça Eleitoral tem dessas coisas: enquanto milhões de pessoas exercem silenciosamente o direito de escolher seus representantes, em alguma sala há sempre uma pequena urgência lembrando ao juiz que democracia também se faz de regras. Tratava-se de infração de menor potencial ofensivo, sujeita a medidas alternativas. Não havia razão para manter aquele cidadão preso. Analisei o caso e concedi-lhe liberdade. Primeiro nó desatado. O dia podia continuar.
Seguimos para Pium. Tenho um costume antigo nos dias de eleição: circular pelas seções em todas as cidades da zona eleitoral. Não gosto de acompanhar democracia apenas por números em uma tela. Quero ver os mesários, cumprimentá-los, agradecer àqueles homens e mulheres que entregam um domingo inteiro ao serviço público. Quero observar as filas, ouvir as dúvidas, sentir o movimento. Há coisas que relatório nenhum alcança. Democracia tem barulho de passos no corredor de escola, papel dobrado no bolso, documento apertado na mão e aquela pequena ansiedade de quem espera sua vez diante da urna.
Em Pium, encontrei uma senhora às voltas com um problema enorme para ela e minúsculo para o mundo: não conseguia recordar o número de seu candidato a deputado federal. Tentava uma vez, outra, outra mais. Até que começou a dizer, já desconfiada, que seu candidato não estava na urna. Cheguei justamente nessa hora. Era preciso ajudar, mas sem atravessar a fronteira sagrada do sigilo e da liberdade do voto. Expliquei-lhe, então, que a Justiça Eleitoral mantinha afixada na seção uma listagem oficial com os nomes e números dos candidatos e que ela própria poderia consultá-la. Assim fez. Foi até a lista, procurou com atenção e, pouco depois, encontrou o que buscava: o número correto de seu candidato. Voltou à urna, completou tranquilamente a votação e saiu sorridente. A velha e conhecida “colinha”, tantas vezes tratada como detalhe, teria poupado aquela pequena aflição. Mas, no fim, tudo se resolveu – e o voto continuou sendo inteiramente dela.
[Agora deu certo, doutor!].
Resolvido o episódio, retomamos a estrada. Em dia de eleição, aprendi que pouco se pode prever; o melhor é estar preparado para quase tudo. Seguimos para Fátima, pequena cidade plantada às margens da BR-153, onde logo me chamou a atenção a movimentação de alguns fiscais partidários entre as filas de eleitores. Fiscalizar é direito e parte importante do processo democrático; aproximar-se demasiadamente de quem aguarda para votar, porém, exige cautela. Orientei-os a permanecer nos locais apropriados ao exercício de suas funções. Sempre fui firme nesse ponto. Quando está em jogo a liberdade de escolha do eleitor, prefiro que a prudência peque pelo excesso a permitir que qualquer gesto, ainda que aparentemente inocente, lance dúvida sobre a tranquilidade do voto. Todos compreenderam a orientação, retomaram seus lugares e as filas voltaram ao que deveriam ser naquele instante: espaço apenas dos eleitores, cada qual sozinho com sua consciência e sua escolha.
Pouco depois, outro episódio me ficou na lembrança. Um trabalhador tentava registrar a digital. Pedreiro de muitos anos, tinha as mãos gastas pelo serviço. A biometria recusava justamente aquilo que a vida havia gravado fundo: as marcas do trabalho. Tentou uma vez. Duas. Mais outra. Eu estava por perto, acompanhando. Até que o sistema finalmente reconheceu aquele dedo que o cimento, a areia, o sol e os anos haviam transformado. A urna se abriu para ele. Fiquei pensando: máquina nenhuma deveria esquecer que, antes da digital, existe uma mão. E antes da mão, uma história.
Antes de seguirmos, conversei com Selma, nossa servidora de apoio. Há mais de dez anos ela nos auxilia tanto no Fórum de Cristalândia, na 1ª Vara, quanto nas eleições. Gente assim raramente aparece nas fotografias oficiais, mas sustenta silenciosamente as instituições. Democracia também é feita por pessoas cujos nomes quase nunca chegam às manchetes. De Fátima fomos a Oliveira de Fátima, apenas cinco quilômetros adiante. Coisas do Tocantins: duas cidades quase encostadas uma na outra, cada qual com sua prefeitura, sua praça, suas histórias e seus orgulhos. Tudo tranquilo. Depois, Nova Rosalândia. Também sem ocorrências. Foi quando resolvemos fazer uma pausa em um pequeno posto de combustível às margens da BR-153. Depois de tantas horas entre estradas, seções eleitorais e ocorrências, era hora de descansar um pouco o corpo e, principalmente, de almoçar antes que o caminho nos chamasse outra vez.
Ali, por alguma alquimia que só comida consegue fazer, voltei menino a Alvorada do Norte, em Goiás. Galinha caipira com pequi. Bastou o cheiro. Há sabores que não alimentam somente o corpo; alimentam o passado. O gosto me devolveu por instantes à simplicidade de onde vim, às mesas sem cerimônia, àquela vida em que quase tudo era mais difícil, mas certas coisas pareciam mais inteiras.
Almoçamos juntamente com a equipe do amigo José Eustáquio, juiz da 2ª Vara de Cristalândia. Nossa amizade também carrega suas histórias, desde à época dos concursos para a magistratura. Brinco que tive alguma responsabilidade pelo casamento dele: fui eu quem, anos atrás, lhe apresentou Juliana. Depois vieram namoro, casamento e uma linda filha. Fui padrinho dos dois. A vida tem dessas costuras: a gente sai de casa para trabalhar numa eleição e, entre uma cidade e outra, reencontra pedaços da própria história sentados à mesa.
Depois do almoço, retornamos a Cristalândia. Eu precisava assinar o alvará de soltura daquele homem preso pela manhã e, aproveitando a passagem, cumprir também meu dever de eleitor. Voto em Cristalândia desde 2014, minha primeira eleição como juiz eleitoral. E isso, para mim, nunca foi apenas uma transferência de domicílio eleitoral. Cristalândia ganhou meu coração. Foi aqui que aprendi que julgar uma comarca do interior não significa apenas conhecer códigos, precedentes e processos. É preciso conhecer a terra. Conhecer suas águas. Entender os conflitos que atravessam cercas, fazendas, rios, aldeias e gerações. Nos primeiros meses, quando me deparei com tantos processos fundiários, ambientais e interculturais, percebi que havia chegado a um verdadeiro laboratório de direitos humanos.
Os anos correram. Sete eleições, entre gerais e municipais. Mais de uma centena de conflitos fundiários enfrentados. Depois vieram a gestão dos recursos hídricos da Bacia do Rio Formoso e o programa de inclusão sociopolítica dos povos indígenas, que me levou pelos caminhos do Tocantins e ao encontro dos Apinajé, Karajá, Javaé, Karajá-Xambioá, Krahô-Canela, Krahô e Xerente. A magistratura, que um dia imaginei exercida entre paredes, foi me ensinando justamente o contrário: às vezes, para compreender um processo, é preciso sair do gabinete. Pisar o chão. Escutar as pessoas. Ver o rio. Conhecer a aldeia. Sentir a poeira da estrada.
Votei. Depois percorri as seções do Colégio Estadual, cumprimentei mesários, conversei com a equipe e agradeci até pelo clima, mais ameno depois das chuvas torrenciais dos dias anteriores. Então seguimos para Lagoa da Confusão. Logo na primeira seção visitada apareceu dona Maria. Seu nome não constava no caderno de votação, embora sua situação estivesse regular. Dona Maria não entendia. E queria votar. Queria muito. Consultamos o sistema e descobrimos que seu local de votação havia sido alterado, mas ela não buscara uma nova via do título. Expliquei-lhe o ocorrido e fiz questão de acompanhá-la até a seção correta. Pedi aos mesários que dessem prioridade àquela senhora que carregava nos olhos uma vontade bonita de exercer sua cidadania.
Ela votou. Pode parecer pouco. Um voto entre milhões. Uma senhora numa pequena cidade do interior do Tocantins. Uma gota no oceano. Mas talvez seja justamente esse o engano: imaginar que o oceano existe sem suas gotas. Naqueles olhos havia algo que a polarização política, a desinformação e o ruído das redes sociais ainda não conseguiram destruir: a crença simples de que escolher importa. Dona Maria sabia que seu voto sozinho não decidiria o destino do país. Ainda assim, fez questão dele. E me veio à memória aquela ideia atribuída a Madre Teresa de Calcutá: o que fazemos pode ser apenas uma gota no oceano, mas, sem essa gota, o oceano não seria o mesmo.
Já nos aproximávamos do fim da votação quando Alexandre telefonou. Precisávamos retornar à sede do Cartório Eleitoral para os trabalhos da Junta. Como presidente, eu deveria acompanhar integralmente os procedimentos. E lá fomos outra vez pela estrada. Cinquenta quilômetros separam Lagoa da Confusão de Cristalândia. Na volta, fiquei mais calado. A estrada corria para trás pela janela e, comigo, vinham os anos. Naquele outubro eu completava dezoito anos de magistratura. Maioridade. Sorri sozinho lembrando dos juízes mais antigos quando cheguei ao Tribunal. Novato, cheio de vontade, querendo trabalhar, participar, fazer. E vinha a brincadeira:
[Já chegou e quer sentar na janela, Wellington?]
Pois agora completei dezoito anos. Pela regra da vida, alcancei a maioridade. Não sei se isso finalmente me dá direito à janela. Talvez não. E talvez seja melhor assim. Porque a magistratura também foi me ensinando que crescer não é conquistar o melhor lugar no ônibus. É descobrir que há muitas janelas. Que nossa paisagem não é a única. Que autoridade não transforma opinião em verdade. Que podemos decidir uma causa e ainda assim continuar aprendendo com ela. Que algumas vezes acertamos, outras erramos, algumas vencemos nossas convicções e, noutras, precisamos ser vencidos por argumentos melhores.
Lembrei-me também do começo. Durante muito tempo ser juiz me pareceu sonho grande demais para caber na vida que eu tinha. Talvez tenha sido medo. Talvez prudência. Talvez aquela velha mania humana de calcular o futuro com a régua curta do presente. Então as coisas aconteceram depressa: a aprovação na Procuradoria-Geral do Município de Manaus, quase dois anos por lá (2007); depois, o V Concurso da Magistratura do Tocantins (2008). E aquela vida que parecia improvável tornou-se a minha.
Chegamos a Cristalândia por volta das 16h50. Faltavam dez minutos para o fechamento das seções. Nossa maior preocupação sempre foi a segurança do processo eleitoral, especialmente das equipes enviadas às terras indígenas da Ilha do Bananal. E justamente de lá vieram as primeiras notícias de transmissão. A Aldeia Boto Velho, do cacique Wagner Javaé, foi a primeira a enviar seus votos. Aquilo me tocou. Em algum ponto da maior ilha fluvial do mundo, depois de estradas, rios, distâncias e toda a logística necessária para levar uma urna até uma comunidade indígena, os votos atravessavam o espaço e chegavam a Cristalândia. Tecnologia e território encontravam-se numa tela. O cidadão indígena da Ilha do Bananal e o morador da cidade estavam, naquele instante, dentro do mesmo processo democrático.
Mérito de uma equipe de ouro. Aliás, todas as equipes haviam sido cuidadosamente preparadas por Alexandre, nosso chefe de cartório. Nordestino de uma serenidade quase luminosa, paciente, cuidadoso e dono de uma competência que admiro há anos. Instituições não funcionam por abstração. Funcionam porque há pessoas como ele fazendo bem aquilo que precisa ser feito, inclusive quando ninguém está olhando.
Começou a totalização. Nas telas espalhadas pelo cartório, acompanhávamos cada seção concluir sua transmissão. Uma a uma. Escola por escola. Cidade por cidade. Aldeia por aldeia. Atrás daqueles números havia gente. João do Arroz e suas preocupações com o país. O pedreiro de mãos gastas. A senhora que esqueceu o número do candidato. Dona Maria procurando sua seção. Os fiscais partidários. Os mesários, Selma, Everton, Alexandre e tantos outros. E talvez seja esse o problema quando reduzimos democracia apenas aos vencedores: esquecemos todas as pessoas que tornaram possível o resultado.
Por volta das nove da noite, encerramos os trabalhos da Junta Eleitoral. O corpo estava cansado. O dia começara com água fria, bolo de mandioca, broas e café amargo. Terminava diante de telas, boletins e votos totalizados. Entre uma coisa e outra, centenas de quilômetros, pequenas cidades, conversas, ocorrências, decisões, lembranças e gente. Muita gente.
Saí dali pensando que dezoito anos de magistratura não me ensinaram propriamente a ter mais certezas. Talvez tenham feito o contrário. Ensinaram-me a desconfiar delas. A vida, os processos, as estradas e as pessoas foram mostrando que maturidade não está em vencer todas as discussões, nem em ter razão sempre. Está também em reconhecer limites, mudar de ideia, aceitar derrotas e continuar caminhando.
A democracia sabe disso melhor que nós. Ela sobrevive porque, ao final de cada eleição, alguém precisa saber ganhar sem se tornar dono do país – e alguém precisa saber perder sem deixar de pertencer a ele. Talvez devêssemos aprender isso ainda meninos. Aprender a ganhar. Aprender a perder. Aprender que o outro também tem sua janela.
Naquela noite, enquanto Cristalândia sossegava depois de mais uma eleição, pensei que talvez a vida inteira seja assim: uma longa estrada entre aquilo que sonhamos e aquilo que conseguimos ser. Às vezes dirigimos. Às vezes vamos no banco de trás. De vez em quando conseguimos a janela. Mas o importante mesmo é não deixar de olhar a paisagem.
E assim eu sigo. Com meu trabalho, meus sonhos, meus erros e acertos. Com as estradas que ainda faltam, os rios que ainda preciso atravessar e as pessoas que ainda hei de encontrar. Porque, depois de dezoito anos, começo a desconfiar que a melhor parte da caminhada nunca foi chegar. Foi aprender a prosseguir.
WELLINGTON MAGALHÃES
É juiz de direito, diretor adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense, coordenador do Centro Judiciário de Solução de Conflitos Ambientais e Fundiários, mestre em Direito Constitucional (Portugal), doutor em Desenvolvimento Regional, Políticas Públicas e Efetividade da Prestação Jurisdicional (UFT) e pós-doutorando em Inteligência Artificial e Justiça Ambiental (USP).





