O Judiciário brasileiro não se limita aos bastidores de Brasília. Embora as decisões dos tribunais superiores ocupem as manchetes e concentrem o debate público, a Justiça cotidiana acontece nas comarcas, nos fóruns do interior, nas periferias, nos campos e nas aldeias. A Justiça que efetivamente alcança os brasileiros não é apenas a de Brasília: é a Justiça do Brasil. Em um momento marcado por tensões sociais, desinformação, desigualdades persistentes e desconfiança nas instituições, é preciso recordar que a legitimidade do Judiciário também nasce dessa presença silenciosa e diária junto à população.
Quando se fala em “Judiciário”, muitas vezes se imagina um poder abstrato, impessoal e distante. Mas o Judiciário não é uma entidade sem rosto. É um universo formado, em números redondos, por cerca de 18 mil magistrados — o próprio Conselho Nacional de Justiça registra aproximadamente esse número de juízes em atividade — que diariamente decidem sobre a liberdade, a família, a moradia, a propriedade, o trabalho, o meio ambiente e, não raras vezes, sobre o próprio destino das pessoas. Por trás de cada processo existem nomes, histórias, medos e esperanças. A Justiça real não acontece apenas nos códigos: acontece na vida.
Foi o que aprendi percorrendo estradas de terra, atravessando rios e entrando em aldeias indígenas, assentamentos, propriedades rurais e comunidades quase invisíveis aos grandes centros. Aprendi escutando os povos Krahô, Apinajé, Karajá/Javaé e Xerente; participando de inspeções judiciais; mediando conflitos fundiários e ambientais; e acompanhando, por anos, o processo estrutural da Bacia do Rio Formoso. Nessas experiências, percebi que os autos contam apenas uma parte da verdade. A outra parte está no rio que perde volume, na família que teme perder sua casa, no produtor que depende da água, no indígena que luta para preservar sua cultura e no cidadão que, antes de pedir uma sentença, deseja ser verdadeiramente ouvido.
Estar próximo não significa abandonar a imparcialidade, decidir por aplausos ou substituir a lei pela emoção. Significa julgar com maior consciência, compreender as consequências concretas de cada decisão e construir respostas juridicamente seguras para problemas humanos complexos. A toga não deve erguer um muro entre o magistrado e a sociedade; deve ampliar sua responsabilidade perante ela. Escutar não enfraquece a autoridade. Ao contrário, confere legitimidade à decisão e permite que o rigor técnico dialogue com a realidade.
A magistratura de que o Brasil necessita é aquela que permanece independente sem se tornar indiferente; firme sem ser insensível; prudente sem se esconder atrás da burocracia. Uma magistratura capaz de enxergar, para além dos números processuais, as pessoas comuns que formam o Brasil profundo. Quando o juiz atravessa a porta do gabinete, percorre o território, escuta as comunidades e conhece os efeitos de suas decisões, o Judiciário deixa de ser uma abstração distante. Torna-se presença republicana, garantia de direitos e esperança concreta de que a Justiça, afinal, pode chegar a todos.
WELLINGTON MAGALHÃES
É juiz de direito, diretor adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense, coordenador do Centro Judiciário de Solução de Conflitos Ambientais e Fundiários, mestre em Direito Constitucional (Portugal), doutor em Desenvolvimento Regional, Políticas Públicas e Efetividade da Prestação Jurisdicional (UFT) e pós-doutorando em Inteligência Artificial e Justiça Ambiental (USP).
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