“Um novo olhar: “prestar atenção” na era do clickbait”. Somos chamados a uma conversão do nosso olhar: a renová-lo, com atenção e com amor. Só assim conseguiremos ver o mundo, os outros e também nós próprios como Cristo nos vê: chamados pelo nome e amados. A nossa comunicação muda quando o nosso olhar opta por encontrar o outro em vez de o julgar” (Papa Leão XIV, 61ª Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2027).
Estamos contando nos dedos da mão quantos dias faltam para as eleições de 2026. Estes últimos dias, na política tudo é possível e, em muitos aspectos, quase impossível. O que geralmente não acontece em outras áreas das relações humanas, na campanha política acontece: “os inimigos não se dão as mãos”. Esta primeira frase eucarística é retirada da Oração Eucarística sobre a Reconciliação II. Da mesa da Eucaristia rezamos: “Pelo vosso Espírito Santo moveis os corações, de modo que os inimigos voltem à amizade, os adversários se deem as mãos e os povos procurem reencontrar a paz”.
Está difícil na atual conjuntura sociopolítica. Mas oração é sempre oração, tem poder de mover montanhas e de remover dos corações as inimizades. Os concorrentes, politicamente falando, são adversários. Não inimigos. Antes de serem inimigos eram legítimos irmãos. Aliás, somos todos irmãos. Às vezes, concorrentes e adversários. Jamais inimigos. Não deveríamos voltar ao tempo de Caim e Abel.
O Papa Leão, no Congresso Europeu, na França, assim se manifestou: “Com efeito, invocar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão configura uma profanação do seu nome. Nada do que desfigura a dignidade humana pode reivindicar uma autêntica inspiração divina. O discurso religioso deve exortar constantemente ao desarmamento dos corações e das palavras. Isto implica a responsabilidade direta de cada um de nós, enquanto guardiães das nossas respectivas tradições.”
Eleição não está nas categorias de ódio e de guerra. Está mais para festa do que para guerra. A política é a festa da democracia. É a caridade e a amizade social organizada. Nós sabemos – ou então não nos damos conta – dos reais interesses de políticos com relação à Igreja e a religião. Basta, para isto, ver o que acontece com Nossa Senhora Aparecida. A Igreja não é objeto político. E o objeto da política é outro, diferente do objeto da Igreja. Aparecida não está à venda no mercado político. Os políticos não deveriam se entremeter em assuntos que não lhes dizem respeito. A Igreja Católica é uma instituição milenar. E ainda existe e está de pé porque não se misturou com interesses meramente políticos.
O que realmente eu queria dizer é que não concordo que Igreja seja curral, plataforma e comitê político. A Igreja tem um dono: Jesus Cristo. A Igreja tem uma chefia: o povo de Deus, ladeado por seus ministros ordenados. A Igreja não precisa de tutoria política, pois, o Espírito Santo a guia e a conduz nos caminhos da missão. A Igreja tem o seu mandamento: todos somos irmãos. A Igreja possui a sua comunhão, a sua participação e a sua missão; a sua unidade, a sua harmonia e a sua concórdia. Gosto muito da comparação de Igreja feita por Santo Inácio de Antioquia: a harmonia da Igreja é comparada a união dos fiéis, presbíteros e bispos com as cordas de uma cítara que juntas entoam um hino a Deus. É dessa forma que a voz de Cristo é cantada e deverá ser ouvida. Todos em uníssono cantam ao Pai, pelo Filho no Espírito. É nesse estado de vida que os inimigos voltam à amizade e os adversários se dão as mãos.
Vivemos cercados por conteúdos agressivos. Dormimos e acordamos com mensagens, notificações, vídeos, notícias e comentários de ódio. Vamos às urnas eletrônicas sem esses ódios nos olhos, nos dedos e nos corações. Os algoritmos podem ser a boa nova da agressividade, o Evangelho de Jesus Cristo, no entanto, continuará sendo a Bao-Nova da irmandade, da amizade e da salvação. Parafraseando o Salmo 143 (144),1: antes de adentrar na cabine de votação, rezemos esta oração: “Bendito seja Deus, meu rochedo! Adestre meus dedos para a urna e minhas mãos para votação. Amém!
DOM PEDRO BRITO GUIMARÃES
É arcebispo de Palmas – TO.
Redação
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