Todos os anos em período de estiagem e altas temperaturas (com pico nos meses de julho a setembro), o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil do Município de Palmas registram dezenas de chamados semanais de ocorrências de incêndio em vegetação, superando o ritmo de outras épocas, devido à combinação de baixa umidade e ventos fortes.
Histórico dos Focos de Calor Mensais em Palmas (2021–2025)
| Mês | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | Média do Mês |
| Janeiro | 0 | 0 | 1 | 0 | 0 | 0,2 |
| Fevereiro | 0 | 1 | 0 | 0 | 1 | 0,4 |
| Março | 1 | 0 | 0 | 1 | 0 | 0,4 |
| Abril | 0 | 1 | 2 | 1 | 0 | 0,8 |
| Maio | 2 | 3 | 1 | 4 | 2 | 2,4 |
| Junho | 4 | 5 | 3 | 7 | 5 | 4,8 |
| Julho | 12 | 15 | 8 | 19 | 14 | 13,6 |
| Agosto | 35 | 42 | 28 | 51 | 38 | 38,8 |
| Setembro | 31 | 38 | 25 | 48 | 34 | 35,2 |
| Outubro | 8 | 11 | 6 | 15 | 9 | 9,8 |
| Novembro | 2 | 3 | 1 | 3 | 2 | 2,2 |
| Dezembro | 0 | 1 | 0 | 1 | 0 | 0,4 |
(INPE, 2026) Fonte:
Os principais focos de incêndios no município de Palmas acontecem em lote vazio, canteiro de avenida e beiras de rodovias. Queimadas em áreas que a cidade já loteou, mas ainda não ocupou.
A Capital tem uma característica que agrava o quadro. Por ser uma cidade planejada, com quadras reservadas e grandes eixos de expansão, ela mantém vazios urbanos expressivos cobertos por capim e vegetação de Cerrado, que secam a partir de julho, se tornando combustível para o fogo. Com milhares de lotes não edificados e terrenos baldios dispersos entre as quadras e setores da capital, esses espaços ampliam drasticamente os riscos de propagação rápida de incêndios durante o período de estiagem.
Em terrenos baldios e áreas loteadas, a vegetação nativa do Cerrado dá lugar a gramíneas invasoras e exóticas, como o capim-braquiária. Espalhadas pelo vento e por obras, essas plantas crescem rápido em solos degradados e secam por inteiro durante a estiagem. Elas produzem uma camada contínua e densa de combustível vegetal que queima rápido com qualquer fagulha, levando o fogo dos lotes vagos para as áreas maiores pela propagação do vento.
A fumaça é um dos problemas associados às queimadas. Ela leva material particulado fino, partículas tão finas que o nariz e a garganta não conseguem barrar. Essas partículas estão associadas ao agravamento de diversos problemas de saúde, de crises de asma e bronquite a doenças cardiovasculares.
Como a queima ocorre em lotes baldios e canteiros no meio do perímetro urbano, a exposição da população é imediata e muito mais intensa do que a fumaça de queimadas distantes.
Porém, os impactos das queimadas vão muito além disso. Dentre os principais problemas associados é possível destacar:
- Saúde: Irritação nos olhos e na garganta, crises de asma, rinite e bronquite. Durante o pico da estiagem, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Unidades Básicas de Saúde de Palmas registram picos no aumento de atendimentos por infecções respiratórias agudas, com idosos e crianças representando a maioria absoluta dos casos devido à inalação contínua de fumaça e material particulado.
- Trânsito: A fumaça densa sobre rodovias (como a TO-050 e a BR-010) e grandes avenidas perimetrais reduz drasticamente a visibilidade dos condutores, sendo causa recorrente de engavetamentos e colisão de veículos registrados pelo Batalhão de Polícia Militar Rodoviária e de Divisas (BPMRED) e Defesa Civil, exigindo interdições temporárias de faixas nos horários de maior acúmulo de névoa seca.
- Patrimônio: O fogo que se alastra velozmente pelos lotes vagos ultrapassa muros e cercas de madeira, atingindo fiações elétricas, veículos estacionados, depósitos e estruturas de residências vizinhas.
- Natureza: O ciclo de fogo repetido degrada o solo urbano, elimina o banco de sementes nativas do Cerrado e cria o ambiente ideal para a colonização por gramíneas invasoras. Esse capim cresce rápido, seca na estiagem seguinte e fornece biomassa ainda mais abundante para o próximo incêndio.
- Rede Elétrica: Queimadas sob ou próximas a linhas de distribuição e transmissão causam o chamado arco elétrico (curto-circuito provocado pelo ar ionizado pela fumaça e pelo calor). Conforme alertas da concessionária de energia local (Energisa Tocantins), essas queimadas causam desligamentos automáticos de circuitos, deixam milhares de clientes sem energia e podem danificar equipamentos da rede de média e alta tensão.
Em 2026 palmas registrou, de acordo com o monitoramento de satélite e das autoridades responsáveis, os seguintes dados na época de estiagem:
Focos de calor em Palmas (INPE/BDQueimadas)
- Dado: 28 focos de calor registrados de 1º de julho a 30 de setembro de 2026.
- Comparação: 1 foco de calor detectado por satélite a cada 78,8 horas (3,28 dias).
Atendimentos operacionais da Defesa Civil Municipal de Palmas
- Dado: 106 ocorrências de combate a incêndios atendidas no mês de agosto de 2026.
- Comparação: 1 incêndio em vegetação atendido a cada 7,01 horas (3,41 ocorrências por dia).
A Defesa Civil Municipal orienta a população a não utilizar fogo para eliminar lixo, folhas ou vegetação seca. A prática de queimadas urbanas não é apenas uma conduta perigosa, mas constitui crime ambiental. Provocar incêndio em mata, floresta ou em áreas urbanas sujeitas a queimadas é infração penal prevista na Lei de Crimes Ambientais (Lei Federal nº 9.605/1998, art. 41 e art. 54), passível de pena de reclusão e multa, inclusive nos casos em que a queimada resulta em poluição ou risco à saúde humana. Na esfera municipal, o Código de Meio Ambiente de Palmas (Lei Complementar nº 42/2001) e o Código de Posturas do Município (Lei nº 371/1992) proíbem expressamente a queima de resíduos ao ar livre e a limpeza de terrenos com uso de fogo, sujeitando o infrator a autos de infração e multas pesadas aplicadas pelos fiscais da Fundação Meio Ambiente (FMA).
Nem todo foco urbano é criminoso ou negligente. Parte do fogo tem origem natural ou acidental, e o registro operacional da Defesa Civil ou dos Bombeiros nem sempre consegue identificar a causa exata.
Além disso, existe uma grande diferença entre o foco de calor de satélite e a ocorrência de campo: os satélites de referência do INPE (AQUA) possuem resolução espacial de aproximadamente 1 km x 1 km por pixel. Isso significa que queimadas pequenas em lotes urbanos, que começam e apagam em poucos minutos, frequentemente não são detectadas pelos sensores em órbita, fazendo com que os números do satélite subestimem drasticamente o problema real na cidade.
Fonte: < https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/queimadas/portal/pages/secao_informacoes/faq/>
Vale também reconhecer que fiscalizar milhares de lotes particulares espalhados pelas quadras é um desafio logístico real para a gestão municipal.
O que a população pode cobrar e acompanhar:
- Fiscalização e Limpeza: Perguntar à prefeitura quantos proprietários foram notificados e multados por falta de roçagem e limpeza de terrenos baldios durante a seca, com base no Código de Posturas do Município de Palmas (Lei Instituidora nº 371/1992 e atualizações), que prevê multas e imputação dos custos de limpeza urbana ao dono do imóvel.
- Barreiras de Proteção: Acompanhar se a gestão pública e os loteadores executaram aceiros (faixas de solo exposto sem vegetação) nas bordas das áreas de expansão urbana, encostas de morros e limites de Áreas de Preservação Permanente (APPs).
- Transparência: Exigir que o poder público divulgue relatórios ou mapas semanais com o georreferenciamento das ocorrências de incêndio por bairro e quadra durante a estiagem.
Canais de Denúncia e Emergência:
- Emergência (Fogo ativo): Corpo de Bombeiros Militar via 193 ou Defesa Civil Municipal via 199.
- Denúncia de lote sujo, acúmulo de mato ou queima irregular de lixo: Ouvidoria Geral do Município via 0800 6464 156 (E-mail: [email protected]) ou pelo canal de fiscalização urbana da Fundação Meio Ambiente (FMA) / Secretaria de Desenvolvimento Urbano.
VICTOR HUGO TOLEDO
É engenheiro Ambiental e especialista em Ecologia Urbana.
[email protected]





