O CINETOCA – Festival de Cinema do Tocantins anunciou sua segunda edição acendendo uma fogueira no coração da memória brasileira. Entre 902 filmes inscritos, vindos de diferentes cantos, urgências e territórios, o festival reafirma sua força como um dos eventos audiovisuais mais pulsantes da região Norte. Com oito categorias — da Mostra Competitiva de Curta-Metragem à Mostra SoMMos Amazônia, incluindo as Mostras Competitivas de Longas Metragens Tocantinenses e a Mostra Nacional de Curtas — o festival abre uma janela para histórias que insistem em existir, apesar do silêncio que por décadas tentou encobri-las.
Entre os selecionados, dois filmes se destacam como cicatrizes vivas: Doutor Araguaia e Um Certo João Silvino. Ambos atravessam a Mostra Competitiva Tocantinense como tocha acesa em plena noite, iluminando o que a Ditadura Militar tentou apagar.
“Doutor Araguaia”: a vida interrompida de Juca
Nesse nosso documentário procuramos conduzir o espectador pela trajetória de João Carlos Haas Sobrinho, o jovem médico gaúcho que, antes de se tornar o “Juca” da Guerrilha do Araguaia, foi estudante, militante, irmão, filho. Preso em 1964, treinado na China, primeiro médico de Porto Franco-MA, ele se transformou em símbolo de resistência ao assumir o posto de Comandante Médico da guerrilha.
Sua morte, em 30 de setembro de 1972, não encerra sua história — ao contrário, inaugura uma busca que atravessa décadas. Seus restos mortais nunca foram devolvidos à família, e o filme acompanha, com delicadeza e firmeza, a luta incansável de Sônia Haas por verdade e justiça. É um retrato de coragem, mas também de ausência; de convicção política, mas também de amor fraternal. Costumo comentar que é uma história de amor e dor, onde procuramos realçar o humanismo e a leveza de João Carlos.
“Um Certo João Silvino”: o silêncio que ecoa em Natividade
Na obra de Hélio Brito, ficção e documentário se entrelaçam para reconstruir os últimos dias de Ruy Carlos Vieira Berbert, estudante da USP que, ao chegar a Natividade em 1971, adotou o nome João Silvino. Pouco depois, foi preso. Pouco depois, apareceu morto. Pouco depois, o país e a pacata Natividade seguiram — mas a verdade, essa, só emergiu em 1972.
O filme devolve humanidade ao que a violência tentou reduzir a um registro policial. Reconstitui o medo, a solidão, a juventude interrompida. E faz da cadeia de Natividade não apenas cenário, mas testemunha.
A memória como território de disputa
A presença dessas duas obras revela a maturidade da cinematografia tocantinense, que não teme revisitar seus fantasmas. Compreender que a memória é um campo de batalha, e que o cinema, quando comprometido com a verdade, é uma das armas mais poderosas contra o esquecimento.
O festival celebra o impacto das políticas públicas de fomento ao audiovisual, permitem que histórias antes sufocadas encontrem luz, tela e público. Ao trazer à tona, os 21 anos de tortura, barbárie e ataques à democracia, o CINETOCA 2026 reafirma o cinema como instrumento de resistência e reconstrução histórica.
O lirismo possível em tempos de dor
Os filmes selecionados são documentos de um período sombrio e gestos de afeto. Há ternura nos depoimentos, poesia nas trilhas sonoras, beleza nas imagens das regiões onde se buscava ouro e nas águas cristalinas dos rios Araguaia e Tocantins. Ali, na confluência entre Pará, Tocantins e Maranhão — o nosso Bico do Papagaio — a natureza parece guardar, em silêncio, as histórias que o país ainda luta para compreender.
O FESTIVAL CINETOCA 2026 acontecerá de 9 a 14 de novembro, com exibições no Cine Cultura, no Memorial Coluna Prestes e no Cine Capivara, na UFT. Será um encontro entre arte, memória e esperança.
EDSON CABRAL
É cineasta, documentarista e membro da Academia Palmense de Letras.





