Prosema
Há discursos que ficam muito seguros diante de um microfone, mas precisam de baixar a voz quando chegam à porta de casa.
Segundo notícias publicadas em 10 de outubro, Débora Campopiano, mãe da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, recebe o Benefício de Prestação Continuada desde janeiro de 2019.
A filha, por sua vez, ganhou notoriedade com críticas a políticas de assistência social.
Esse encontro entre o discurso público e a realidade familiar merece reflexão.
Começo pelo que considero essencial: ninguém deve ser humilhado por receber um benefício a que tenha direito. Nem a mãe de uma deputada, nem a mãe de um trabalhador anónimo.
Precisar de assistência não diminui a dignidade de uma pessoa.
Também não cabe transformar perguntas ainda sem resposta numa condenação.
A reportagem não esclareceu as condições que fundamentam o benefício nem a composição do grupo familiar. Esses pontos precisam de apuração, não de sentença antecipada.
A questão política, porém, permanece: que olhar dirigimos à necessidade dos outros quando a necessidade da nossa própria família encontra amparo numa política pública?
Um salário mínimo pode parecer pouco a quem vive cercado de conforto. Para quem enfrenta dificuldades, pode significar comida na mesa, uma conta paga, algum sossego ao deitar a cabeça.
Por trás da palavra «benefício» existe uma vida.
Existe alguém que precisa atravessar o mês. Alguém que tem medo do amanhã. Alguém que gostaria de viver sem depender de ajuda, mas cujas circunstâncias não se resolvem com uma palestra sobre esforço individual.
É fácil falar de mérito sem conhecer os obstáculos do caminho.
Mais difícil é admitir que a vida distribui oportunidades, saúde e segurança de maneira profundamente desigual.
Fiscalizar políticas públicas é necessário. Discutir os seus critérios também. Mas essa discussão perde a honestidade quando trata os beneficiários como suspeitos por princípio ou transforma a pobreza numa falha de carácter.
Quem conhece de perto o valor da assistência tem uma oportunidade especial de falar com responsabilidade. Pode reconhecer limites, propor melhorias e exigir transparência sem desprezar quem precisa.
Gostaria que a notícia servisse para isso: para aproximar o discurso da experiência humana.
Porque a mãe de um adversário político merece a mesma dignidade que a nossa. E a necessidade de uma família desconhecida merece a mesma consideração que a necessidade que conhecemos pelo nome.
A coerência começa quando conseguimos estender aos outros o direito que reconhecemos dentro de casa.
Se o amparo público tem valor quando chega à nossa família, devemos reconhecer o seu valor quando chega à família alheia.
_____________________________________________________________________________________________
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





