O Brasil possui uma riqueza que nem sempre aparece nas manchetes econômicas, mas que pode ser encontrada nos hospitais filantrópicos, nas escolas comunitárias, nas instituições de acolhimento e nos projetos que oferecem oportunidades a quem mais precisa. Essa riqueza nasce da capacidade de transformar solidariedade em ação organizada. A filantropia, uma das expressões mais importantes do Terceiro Setor, ultrapassa o gesto individual de ajudar: mobiliza conhecimentos, gera empregos, movimenta recursos e contribui para ampliar o acesso a serviços essenciais. Seu valor não deve ser medido somente pelo dinheiro que administra, mas também pelos benefícios que oferece à sociedade. Afinal, uma nação não se torna realmente desenvolvida apenas pela riqueza que produz, mas também pela quantidade de vidas que consegue transformar.
A dimensão dessa contribuição surpreende. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil possuía 917.647 organizações da sociedade civil cadastradas em 2024, conforme levantamento publicado em 2025. Esse conjunto, mais amplo do que o universo das instituições filantrópicas certificadas, reúne associações, fundações privadas, organizações religiosas e outras entidades que atuam em diferentes áreas de interesse coletivo. A presença dessas organizações revela uma sociedade que não se limita a apresentar demandas ao poder público, mas também participa da construção de respostas.
Nas grandes cidades e nos pequenos municípios, muitas iniciativas surgem da percepção de necessidades que exigem cooperação, conhecimento e compromisso comunitário. Existe um Brasil que não espera apenas pela mudança: organiza-se para ajudar a realizá-la.
A importância social também se traduz em empregos e atividade econômica. De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), sistematizados pelo Ipea, as organizações da sociedade civil reuniam mais de 2,5 milhões de vínculos formais de trabalho em 2024. São profissionais da saúde, professores, assistentes sociais, cuidadores, técnicos e trabalhadores administrativos que sustentam serviços indispensáveis à população. Além das contratações diretas, essas instituições movimentam fornecedores, transportadoras, empresas de tecnologia e prestadores de serviços, produzindo efeitos econômicos indiretos cuja dimensão exige estudos específicos.
O Novo Caged, divulgado em 4 de novembro de 2026, registrou saldo positivo de 121.305 empregos formais no país em setembro, incluindo 15.403 no segmento de saúde humana e serviços sociais, que abrange empregadores de diferentes naturezas jurídicas. Embora esse resultado não seja exclusivo do Terceiro Setor, evidencia a relevância econômica das atividades relacionadas ao cuidado e à proteção social. A solidariedade, quando organizada com responsabilidade, também produz trabalho, renda e oportunidades.
Os indicadores econômicos reforçam essa importância. Pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em parceria com a Sitawi Finanças do Bem, estimou que o Terceiro Setor representava 4,27% do Produto Interno Bruto brasileiro, considerando dados de 2025. Trata-se de uma referência histórica, não de uma medição atualizada. Em levantamento mais recente, divulgado em setembro de 2026, a Fipe, a pedido do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas (FONIF), estimou em R$ 64,8 bilhões o valor dos serviços prestados em 2024 pelas instituições filantrópicas certificadas, nas áreas de saúde, educação e assistência social.
O FONIF divulgou um índice de R$ 3,23 em serviços para cada real de imunidade tributária estimada, indicador que requer esclarecimento de sua composição metodológica. Ainda assim, os resultados demonstram que a atuação dessas entidades possui dimensão econômica expressiva. O investimento social responsável não representa apenas a aplicação de recursos: também pode ampliar a capacidade de atendimento e produzir benefícios coletivos.
Essa contribuição torna-se ainda mais evidente quando observamos a presença das instituições filantrópicas nos municípios brasileiros. A pesquisa Fipe/FONIF de 2026 identificou 725 municípios nos quais o único hospital geral existente é filantrópico e certificado. Em localidades assim, a continuidade do atendimento depende de uma rede institucional cuja eventual ausência poderia exigir deslocamentos e reorganização dos serviços de saúde. Na assistência social, o levantamento também apontou participação expressiva das entidades certificadas na oferta de vagas em centros-dia. Esses números revelam que a filantropia não constitui uma presença meramente simbólica, mas participa da infraestrutura de atendimento à população.
A Rede APAE, presente em milhares de unidades no país, e a Pastoral da Criança, reconhecida pelo trabalho comunitário de acompanhamento de gestantes e crianças, são exemplos concretos dessa contribuição. Há instituições cujo maior patrimônio não está em seus edifícios, mas nas pessoas que conseguem alcançar.
A capacidade de produzir resultados sociais também aparece em experiências de educação profissional e inovação. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), integrante do Sistema S, possui natureza jurídica distinta das instituições filantrópicas certificadas, mas demonstra como organizações privadas sem finalidade lucrativa podem colaborar com o desenvolvimento nacional. Sua plataforma gratuita SENAI Play conquistou, em 2025, o Prêmio Top Inovação nas categorias Terceiro Setor e Melhor Projeto Geral do Brasil, destacando-se entre 248 iniciativas inscritas. O reconhecimento ultrapassou as fronteiras nacionais: na WorldSkills Shanghai 2026, realizada na China, a delegação brasileira formada por estudantes e ex-alunos do SENAI e do Senac conquistou duas medalhas de prata, seis de bronze e 29 medalhas de excelência, alcançando o segundo lugar mundial na classificação por pontos. As premiações demonstram o potencial da formação técnica e da inovação educacional brasileira. Quando o conhecimento encontra oportunidades, o talento deixa de ser uma promessa e passa a representar uma conquista.
Esses exemplos mostram que a contribuição social não precisa se limitar ao atendimento emergencial. Ela também pode ampliar capacidades, estimular a autonomia e preparar pessoas para participar da economia. A educação profissional, especialmente quando articulada às necessidades do mercado de trabalho, ajuda a aproximar formação e emprego; a assistência social pode fortalecer vínculos familiares e comunitários; e as instituições de saúde contribuem para o atendimento de necessidades essenciais. São resultados de naturezas diferentes, que não devem ser confundidos, mas que revelam possibilidades de cooperação.
O desafio brasileiro é fazer com que essas experiências deixem de ser iniciativas isoladas e inspirem políticas públicas, projetos comunitários e parcerias capazes de alcançar mais pessoas. O melhor resultado da solidariedade não é criar dependência, mas ampliar as condições para que cada pessoa construa o próprio futuro.
Entretanto, reconhecer a importância dessas organizações exige respeitar uma distinção fundamental: o Terceiro Setor não substitui o Estado nem a iniciativa privada; atua ao lado de ambos, de maneira complementar. O Estado permanece responsável pela garantia dos direitos fundamentais e pela organização das políticas públicas. As empresas são essenciais para a produção, os investimentos, a inovação e a geração de empregos. À sociedade civil organizada corresponde a capacidade de mobilizar pessoas, defender direitos, prestar serviços, experimentar soluções e participar do acompanhamento das ações governamentais. Essa cooperação precisa respeitar as diferentes naturezas jurídicas e fontes de financiamento das instituições envolvidas. Também exige transparência, fiscalização, governança profissional e avaliação de resultados.
Porém, reconhecer o mérito social não significa dispensar controles, assim como fiscalizar não deve significar desestimular iniciativas legítimas. A solidariedade conquista reconhecimento; a transparência sustenta a confiança.
No Tocantins, essa reflexão possui relevância especial. As distâncias territoriais, as diferenças de acesso a serviços especializados e as necessidades dos municípios menores demonstram a importância de ampliar redes de cooperação entre governos, empresas, universidades, instituições comunitárias e entidades sociais. A experiência do SENAI oferece uma referência para aproximar educação profissional, novas tecnologias e demandas concretas da economia regional, especialmente nas atividades industriais, agroindustriais e de serviços. Da mesma forma, o fortalecimento das organizações filantrópicas pode contribuir para ampliar atendimentos e oportunidades, desde que acompanhado de planejamento e resultados verificáveis.
O Estado precisa de políticas públicas eficientes; o setor produtivo, de trabalhadores qualificados; e as comunidades, de instituições capazes de responder às suas necessidades. O desenvolvimento regional começa a ganhar significado quando o crescimento econômico se transforma em oportunidades que chegam também aos municípios menores e às famílias mais vulneráveis.
O Brasil precisa abandonar a ideia de que a filantropia é apenas uma resposta ocasional à pobreza ou de que o desenvolvimento depende exclusivamente das decisões governamentais e dos investimentos empresariais. A experiência das organizações sociais, os indicadores econômicos e as conquistas educacionais demonstram que existe uma força coletiva capaz de contribuir para uma sociedade mais preparada, participativa e inclusiva.
Valorizar essa atuação não significa idealizá-la, mas reconhecer seus resultados, exigir responsabilidade e estimular iniciativas que comprovadamente produzam benefícios públicos. Nenhuma instituição, isoladamente, consegue superar os desafios nacionais. Entretanto, quando Estado, empresas e sociedade civil cooperam com objetivos claros, aumentam as possibilidades de transformar recursos em serviços, conhecimento em trabalho e crescimento em bem-estar.
O Estado deve garantir direitos, a economia deve gerar prosperidade e a sociedade civil deve ter espaço para multiplicar oportunidades. Porque a maior riqueza de um país não está apenas naquilo que ele acumula, mas no futuro que consegue construir para sua população.
JÚLIO EDSTRON SECUNDINO SANTOS
É advogado da Minetax Consultoria Tributária, graduado em Direito pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2008), mestre em Direito pela Universidade Católica de Brasília (2014), doutor em Direito pelo UniCEUB e pesquisador do Centro Universitário de Brasília. Ex-assessor especial no Tribunal de Contas do Estado do Tocantins. Professor do curso de Direito da Fbr. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público, atuando principalmente nos seguintes temas: Terceiro Setor, Direito Tributário, direitos fundamentais, educação em direitos humanos, cidadania e Seguridade Social. Membro dos grupos de pesquisa Núcleo de Estudos e Pesquisas Avançadas do Terceiro Setor (NEPATS), Políticas Públicas e Juspositivismo, Jusmoralismo e Justiça Política do UniCEUB. Editor Executivo da REPATS.
E-mail: [email protected].





