Prezado governador eleito Vicentinho Júnior,
Antes de qualquer consideração, quero parabenizá-lo pela extraordinária vitória conquistada nas urnas no domingo, 25. Uma vitória inquestionável, resultado de uma campanha belíssima, construída com inteligência, perseverança e uma notável capacidade de articulação política.
O senhor começou essa caminhada desacreditado por muitos. Não aparecia inicialmente como favorito e precisou superar resistências, desconfianças e estruturas políticas poderosas. Mas cresceu, conquistou apoios, reuniu forças e conseguiu construir uma chapa majoritária de impressionante afinidade política, que terminou como a grande vencedora do processo eleitoral, elegendo governador, vice-governador e o senador de seu grupo.
Não foi pouca coisa. E é preciso reconhecer o mérito de quem soube construir esse resultado.
Entretanto, governador, passada a euforia da vitória, é hora de olhar para a realidade. E ela impõe desafios enormes.
Embora a posse esteja marcada apenas para janeiro, sua administração, na prática, já começou. A formação da equipe de governo constitui o primeiro e um dos mais importantes atos de qualquer gestão. Afinal, a escolha daqueles que estarão ao seu lado ajudará a desenhar o tipo de administração que o Tocantins terá nos próximos quatro anos.
Por isso, minha primeira reflexão é que, na composição do governo, a competência técnica prevaleça sobre as conveniências partidárias. Evidentemente, a política tem seu espaço legítimo e indispensável. Mas o Estado não pode ser tratado como instrumento de acomodação de aliados ou distribuição de recompensas eleitorais.
O Tocantins precisa de gestores preparados, comprometidos com resultados, sensíveis às necessidades da população e, sobretudo, conscientes da responsabilidade que assumirão.
Governador, há mais de uma década defendo, insistentemente, que o Tocantins precisa parar de viver apenas de governos de quatro anos, fazendo voos de galinha. Precisamos de um projeto de Estado, não simplesmente de sucessivos projetos de poder.
Esse talvez seja o maior legado que sua administração poderá deixar.
É fundamental convocar toda a sociedade tocantinense para construir um planejamento estratégico que projete o Estado para os próximos 30 ou 50 anos.
E, quando falo em convocar a sociedade, não me refiro apenas aos órgãos públicos. Estou falando das universidades, do setor produtivo, das federações empresariais, dos sindicatos de trabalhadores, das associações, dos movimentos sociais, das entidades representativas e de todos os segmentos dispostos a contribuir com o futuro do Tocantins.
Precisamos decidir coletivamente que Estado queremos construir.
Que economia teremos daqui a três décadas? Quais atividades produtivas poderão sustentar nosso desenvolvimento? Como vamos gerar empregos de qualidade? Que infraestrutura será necessária? Como enfrentaremos as desigualdades regionais e sociais? Que Tocantins deixaremos para nossos filhos e netos?
São questões grandes demais para serem respondidas apenas pelos ocupantes temporários do Palácio Araguaia.
E há motivos concretos para essa preocupação. O mundo está em profunda transformação, e seremos fortemente impactados.
A China, um dos principais destinos das commodities brasileiras e importante mercado para a produção tocantinense, estabeleceu em seu 15º Plano Quinquenal, para o período de 2026 a 2030, metas de fortalecimento de sua produção agrícola e de sua segurança alimentar.
Isso não significa que deixará imediatamente de importar nossos produtos. Mas revela uma orientação estratégica que poderá, no médio e longo prazo, alterar a dinâmica do comércio internacional e afetar economias dependentes da exportação de matérias-primas.
O Tocantins precisa estar preparado.
Não podemos continuar apostando quase exclusivamente na condição de fornecedores de matérias-primas. Precisamos desenvolver nossa capacidade de industrialização, agregar valor à produção agropecuária e transformar aqui aquilo que hoje sai de nosso território praticamente sem processamento.
Por que não transformar nossas riquezas dentro do próprio Tocantins?
Isso significa gerar empregos, renda, arrecadação tributária, oportunidades empresariais e desenvolvimento econômico em nossas cidades.
O agronegócio é uma potência indiscutível de nossa economia. Mas precisamos avançar para além da produção primária. E isso somente será possível com planejamento, investimentos em infraestrutura, educação, ciência, tecnologia e qualificação profissional.
Governador, quatro anos passam rapidamente. Um projeto de desenvolvimento pode transformar gerações.
A saúde não pode continuar esperando
Outro desafio urgente é a saúde pública.
O Tocantins convive há anos com obras hospitalares que atravessam governos, campanhas eleitorais, promessas e sucessivos anúncios de conclusão.
É verdade que houve avanços na atual gestão, e seria injusto não reconhecê-los. Mas precisamos encerrar definitivamente esse ciclo de hospitais eternamente inacabados.
As obras dos hospitais gerais de Araguaína e Gurupi, por exemplo, representam necessidades históricas da população e ainda exigem providências para sua plena conclusão e funcionamento.
Não é aceitável que investimentos tão importantes se arrastem durante tantos anos enquanto milhares de tocantinenses enfrentam dificuldades para conseguir atendimento médico, exames, cirurgias e tratamentos especializados.
Quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde não pode esperar indefinidamente.
E são justamente os mais pobres que pagam o preço mais elevado pela insuficiência dos serviços públicos.
É necessário estabelecer prioridades, definir cronogramas transparentes, garantir recursos e concluir essas estruturas.
Mais do que inaugurar prédios, será indispensável assegurar profissionais, equipamentos, medicamentos e condições efetivas de funcionamento.
O sucesso de uma gestão na saúde não pode ser medido pelo número de cerimônias oficiais, mas pela qualidade do atendimento oferecido à população.
Há ainda uma questão que considero indispensável submeter à sua reflexão: a proposta de retirar ou reduzir a contribuição destinada ao Fundo Estadual de Transporte (FET).
Governador, é preciso ter muito cuidado com essa decisão.
Ninguém de bom senso desconhece a importância extraordinária do agronegócio para o Tocantins. Trata-se de um dos motores de nossa economia, responsável por produção, empregos, exportações e circulação de riquezas.
Mas também é inegável que o transporte de grandes volumes de produtos agrícolas impõe custos expressivos à infraestrutura rodoviária estadual.
A circulação intensa de veículos pesados acelera o desgaste do pavimento e exige investimentos permanentes em manutenção, recuperação e reconstrução de estradas.
Esses custos não podem recair exclusivamente sobre toda a sociedade.
O Estado já enfrenta enormes necessidades de investimento e recorre a operações de crédito para financiar obras de infraestrutura. Não parece razoável abrir mão de uma fonte de financiamento vinculada justamente à conservação das rodovias.
O FET foi instituído para captar recursos destinados à infraestrutura de transportes, incluindo conservação, manutenção e recuperação de estradas.
A contribuição exigida do setor precisa ser justa, proporcional e compatível com sua capacidade econômica. Mas sua existência atende a um princípio elementar: quem utiliza intensivamente a infraestrutura pública também deve participar de seu financiamento.
Não se trata de penalizar o agronegócio. Muito pelo contrário. Estradas de qualidade são fundamentais para a competitividade da própria atividade agropecuária.
O desenvolvimento econômico exige equilíbrio entre os interesses privados e as necessidades coletivas.
Por isso, peço que reavalie cuidadosamente qualquer iniciativa que possa comprometer a sustentabilidade financeira da manutenção de nossa malha rodoviária.
As isenções fiscais precisam servir à sociedade, não a interesses particulares
Governador, outra medida que considero indispensável é uma revisão profunda, criteriosa e transparente da política de incentivos e isenções fiscais do Tocantins. Segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, o Estado prevê abrir mão de aproximadamente R$ 2,36 bilhões em receitas tributárias somente neste ano. É um valor extraordinário, que exige responsabilidade e rigor em sua aplicação.
Não questiono a importância dos incentivos fiscais para atrair investimentos, fortalecer o empresariado, estimular a atividade econômica e gerar empregos. Eles são instrumentos legítimos e necessários ao desenvolvimento. Mas precisam obedecer a critérios rigorosamente técnicos, transparentes e acompanhados de contrapartidas efetivas para a sociedade.
É fundamental afastar qualquer suspeita de que benefícios dessa natureza possam ser concedidos em razão de amizades, relações pessoais ou conveniências políticas, em vez do interesse público. Cada real de receita tributária renunciada precisa ser justificado pelos resultados econômicos e sociais que proporciona.
Afinal, estamos falando de recursos que poderiam contribuir para financiar hospitais, escolas, programas sociais e políticas de enfrentamento da pobreza. O Estado não pode ser transformado em um sócio sem direito a pró-labore, que assume custos e abre mão de receitas apenas para garantir a lucratividade de determinados grupos empresariais.
O incentivo fiscal precisa ser um investimento no desenvolvimento coletivo, jamais um pacote de bondades para beneficiar amigos do poder.
Por isso, governador, é essencial revisar os benefícios existentes, avaliar seus resultados, exigir contrapartidas mensuráveis e assegurar ampla transparência sobre quem recebe, quanto recebe e o que efetivamente devolve à sociedade.
O dinheiro público, inclusive aquele que o Estado decide não arrecadar, deve servir ao interesse de todos os tocantinenses, não à prosperidade de alguns privilegiados.
Governador, quero chegar agora ao ponto que considero moralmente mais urgente de sua futura administração: o enfrentamento da pobreza.
O Tocantins é um Estado de riquezas extraordinárias. Temos terras produtivas, recursos naturais, localização geográfica estratégica e enorme potencial econômico.
Apesar disso, uma parcela assustadora de nossa população continua enfrentando privações absolutamente incompatíveis com essas riquezas.
Segundo os dados mais recentes da Síntese de Indicadores Sociais disponíveis para esta análise, referentes a 2024, aproximadamente 372 mil tocantinenses, ou 23,9% da população, viviam abaixo da linha de pobreza. Embora o percentual tenha recuado em relação ao ano anterior, continua sendo um indicador profundamente preocupante.
Estamos falando de centenas de milhares de nossos irmãos e irmãs.
Pessoas que enfrentam dificuldades para alimentar suas famílias, garantir moradia adequada, oferecer educação de qualidade aos filhos e ter acesso às condições mais elementares de uma vida digna.
Esse quadro deveria tirar o sono de qualquer homem público verdadeiramente comprometido com o futuro do Estado.
E deveria também constranger nossas elites econômicas e políticas.
Não podemos naturalizar a existência de tanta pobreza em um território que produz tantas riquezas.
É preciso que os setores mais privilegiados de nossa sociedade compreendam que desenvolvimento não pode significar apenas crescimento patrimonial, expansão dos negócios ou aumento dos indicadores econômicos.
Desenvolvimento verdadeiro pressupõe inclusão social.
De que adianta comemorarmos recordes de produção e exportação se uma parcela tão significativa da população permanece excluída dos benefícios dessa prosperidade?
O Tocantins não pode continuar sendo um Estado rico para poucos e marcado por dificuldades para tantos.
Governador, faço aqui um apelo especial: coloque o combate à pobreza no centro de seu projeto administrativo.
Não como iniciativa secundária, nem como simples política assistencial, mas como eixo estruturante de todo o governo.
Isso significa investir em educação, saúde, habitação, qualificação profissional, geração de empregos, fortalecimento da agricultura familiar e políticas de segurança alimentar.
Significa reconhecer que a riqueza produzida pelo Estado deve contribuir para melhorar a vida de todos os tocantinenses, especialmente daqueles que mais precisam.
Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela em que os ricos conseguem acumular cada vez mais, mas aquela em que os pobres deixam de ser pobres.
Se sua administração conseguir reduzir substancialmente essa desigualdade, terá alcançado um resultado muito mais importante do que qualquer vitória eleitoral.
Um governo sem escândalos, com transparência e respeito à democracia
Há, por fim, uma expectativa que considero fundamental.
Espero sinceramente que o senhor realize um governo marcado pela honestidade, pela transparência, pelo respeito às instituições e pela absoluta ausência de escândalos.
O Tocantins já sofreu demais com instabilidades políticas e administrativas.
Antes do atual governador, Wanderlei Barbosa, tivemos sucessivas experiências de governos interrompidos, crises institucionais e disputas que comprometeram a continuidade administrativa.
Precisamos superar definitivamente essa história.
Desejo que o senhor tome posse em janeiro, governe com estabilidade, cumpra integralmente seu mandato e entregue ao sucessor um Estado institucionalmente fortalecido.
Mas a estabilidade não pode ser confundida com ausência de fiscalização.
É essencial que sua administração respeite os órgãos de controle, a independência das instituições e o direito da sociedade de acompanhar, questionar e fiscalizar as decisões do governo.
E faço questão de destacar um compromisso que considero indispensável: o respeito à liberdade de imprensa.
A crítica jornalística não é inimiga de um governo democrático.
O contraditório não é uma ameaça à autoridade de quem governa.
E a divergência política não pode servir de justificativa para perseguições, discriminações administrativas ou tratamento desigual aos cidadãos.
O governante eleito representa toda a população, inclusive aqueles que votaram em seus adversários.
Uma vitória eleitoral expressiva confere legitimidade democrática, mas não elimina os limites constitucionais do exercício do poder.
Um governo verdadeiramente forte não é aquele que procura silenciar seus críticos, mas aquele que tem segurança para conviver com eles.
Espero, portanto, que o Palácio Araguaia esteja permanentemente aberto ao diálogo e que sua gestão compreenda a fiscalização, a transparência e a liberdade de imprensa como pilares indispensáveis da democracia.
O sucesso de seu governo será o sucesso do Tocantins
Governador Vicentinho Júnior, estas palavras não são apenas cobranças. São também manifestações sinceras de esperança.
Sua vitória representa uma oportunidade de abrir um novo ciclo na história política e administrativa do Tocantins.
O senhor terá a possibilidade de demonstrar que é possível conciliar crescimento econômico com justiça social, desenvolvimento produtivo com sustentabilidade, competência administrativa com sensibilidade humana e força política com respeito às instituições.
Terá a oportunidade, sobretudo, de fazer com que o Tocantins deixe de pensar apenas na próxima eleição e comece, finalmente, a pensar nas próximas gerações.
Espero que não desperdice essa oportunidade.
Que sua equipe seja formada pelos melhores quadros disponíveis, e não simplesmente pelos mais próximos politicamente.
Que sua administração priorize quem mais precisa, e não quem mais influência possui.
Que o interesse público esteja sempre acima dos interesses particulares, partidários e eleitorais.
Que tenha coragem para enfrentar problemas históricos e humildade para reconhecer erros e corrigir caminhos.
E que compreenda, desde o primeiro dia, que a maior grandeza de um governante não está no poder que conquista, mas na transformação positiva que consegue produzir na vida das pessoas.
Desejo-lhe, sinceramente, muita sorte, sabedoria e êxito.
Não espero que faça um bom governo apenas para aqueles que o apoiaram. Espero que faça o melhor governo possível para todos os tocantinenses.
Porque, se o senhor governar bem, não serão apenas seus eleitores que ganharão.
Ganhará o Tocantins inteiro.
E é exatamente isso que importa.
Saudações democráticas,
CT





