Não é por mim
Eu vivi os anos 1980.
E talvez quem não tenha vivido aquele tempo não consiga compreender inteiramente o que significava ser jovem, pobre e filho de uma família de trabalhadores naquele Brasil.
Conheci um país muito pobre. Um país em que a hiper-inflação devorava o salário antes que o mês terminasse. Em que comprar alguma coisa exigia contas, renúncias, adiamentos. Em que o futuro, para milhões de brasileiros, parecia uma espécie de luxo reservado aos outros.
Entrei na universidade em 1989.
Meu pai precisou se endividar para que eu pudesse estudar. E eu estava numa universidade estadual.
E eu ainda tive mais sorte que muita gente.
Minha cunhada conheceu a fome.
Fome mesmo.
Hoje ela é pós-doutora.
É impossível olhar para uma trajetória dessas e enxergar apenas uma história individual de superação. Há esforço pessoal, evidentemente. Há talento. Há disciplina. Mas há também algo maior: a possibilidade que uma sociedade oferece quando decide abrir portas que, durante séculos, permaneceram fechadas para os mais pobres.
Porque esforço nenhum existe no vazio.
Sempre há uma estrada antes dos nossos passos.
E uma das missões mais nobres de um país deveria ser impedir que essa estrada terminasse diante da pobreza.
Hoje minha vida é muito diferente daquela dos anos 1980.
Tenho uma boa casa. Moro num lugar muito bom. Tenho bons carros. Vivo com conforto e qualidade.
E talvez exatamente por isso eu tenha uma obrigação ainda maior de não esquecer.
Não esquecer de onde vim.
Não esquecer o aperto da minha família.
Não esquecer meu pai fazendo dívidas para que o filho pudesse estudar.
Não esquecer minha cunhada conhecendo a fome antes de alcançar o pós-doutorado.
Não esquecer, sobretudo, minha mãe.
Minha mãe passou fome quando criança e adolescente.
Como eu poderia me esquecer disso?
Como poderia olhar para trás, para tudo que minha família atravessou, e simplesmente concluir que, agora que estou bem, o problema dos outros deixou de ser meu problema?
Não consigo.
Quero para os outros aquilo que desejo para meus filhos.
Quero que o filho do trabalhador possa entrar numa universidade sem condenar a família inteira ao endividamento.
Quero que quem trabalha tenha tempo para viver.
Tempo para os filhos.
Tempo para descansar o corpo.
Tempo para amar.
Tempo para passear.
Tempo para ler um livro.
Tempo até mesmo para fazer nada.
Porque uma pessoa não nasceu apenas para produzir.
É por isso que considero tão importante o debate sobre o fim da escala 6×1, que nossa elite covarde e secularmente exploradora quer negar ao nosso povo.
Por trás de uma discussão aparentemente técnica existe uma pergunta profundamente humana: quanto da vida de alguém pode ser consumido pelo trabalho?
Essa elite covarde e exploradora enxerga trabalhadores como números, custos, produtividade, mão de obra, peças de uma grande engrenagem econômica.
Eu não consigo enxergá-los assim.
Talvez porque tenha memória.
Quando vejo um trabalhador, vejo um pouco do meu pai.
Vejo minha mãe.
Vejo minha cunhada.
Vejo aquele jovem de 1989 tentando permanecer na universidade enquanto o pai fazia malabarismos financeiros para sustentá-lo.
Vejo milhões de brasileiros que ainda percorrem hoje caminhos parecidos com aqueles que minha família percorreu décadas atrás.
Foi vivendo tudo isso que aprendi que política nunca é uma abstração.
Política pode ser a diferença entre estudar e abandonar a escola.
Entre comer e passar fome.
Entre trabalhar para viver e viver apenas para trabalhar.
Entre encontrar uma porta aberta e passar a vida inteira do lado de fora.
Talvez a maior armadilha da prosperidade individual seja acreditar que chegamos sozinhos.
Não chegamos.
Há sempre alguém que nos carregou por algum trecho.
Um pai.
Uma mãe.
Um professor.
Uma escola pública.
Uma universidade.
Uma política pública.
Uma oportunidade.
Uma sociedade que, em algum momento, decidiu investir em nós.
Por isso minha prosperidade não apagou minha memória.
Fez exatamente o contrário.
Quanto melhor ficou minha vida, mais evidente se tornou para mim que dignidade não deveria ser privilégio.
Eu não quero um país bom apenas para os meus filhos.
Quero um país em que o filho de quem limpa uma casa, dirige um ônibus, trabalha num supermercado, serve uma mesa, levanta uma parede ou passa o dia inteiro debaixo do sol possa chegar mais longe do que seus pais chegaram.
Quero que tenha universidade.
Quero que tenha comida.
Quero que tenha trabalho digno.
Quero que tenha descanso.
Quero que possa sonhar sem que o sonho dependa de um pai se endividar inteiro.
Há uma imagem que me acompanha.
A de uma porta.
Passei boa parte da juventude tentando atravessá-la.
Meu pai ajudou a empurrá-la.
Minha família pagou o preço.
Outras pessoas, em algum momento, também ajudaram a mantê-la aberta.
Eu atravessei.
Minha cunhada atravessou.
Meus filhos encontraram um país diferente daquele que encontrei.
E seria uma enorme traição à minha própria história chegar do outro lado e fechar essa porta.
Não.
A vida me ensinou outra coisa.
Depois que conseguimos atravessar, temos uma responsabilidade: segurá-la aberta.
Para quem vem atrás.
Para o filho do pobre.
Para quem ainda sente fome.
Para quem trabalha seis dias esperando algumas horas de vida no sétimo.
Para quem ainda olha uma universidade como eu olhava em 1989: com esperança e medo.
É por isso que minhas escolhas públicas não começam na minha conta bancária.
Começam na memória.
Na fome da minha mãe.
Na dificuldade da minha cunhada.
Nas dívidas do meu pai.
No jovem que eu fui.
E terminam numa convicção que os anos apenas fortaleceram:
um país não pode ser medido pela tranquilidade de quem chegou ao topo.
Deve ser medido pela distância que ainda falta para quem começou lá embaixo.
Eu já atravessei a porta.
Agora, o mínimo que posso fazer é não fechá-la.
Para mantê-la aberta, neste domingo eu votarei na reeleição de Lula. Não é por Lula, não é por mim, mas porque milhões de irmãos e irmãs brasileiros e brasileiras não voltem à fila do osso, para que as políticas públicas continuem dando cidadania, dignidade e educação a todos e todas.
Por isso, neste domingo, peço a você: vamos reeleger Lula presidente do Brasil.
Sem medo de ser feliz!
Eu vivi os anos 1980.
E talvez quem não tenha vivido aquele tempo não consiga compreender inteiramente o que significava ser jovem, pobre e filho de uma família de trabalhadores naquele Brasil.
Conheci um país muito pobre. Um país em que a hiper-inflação devorava o salário antes que o mês terminasse. Em que comprar alguma coisa exigia contas, renúncias, adiamentos. Em que o futuro, para milhões de brasileiros, parecia uma espécie de luxo reservado aos outros.
Entrei na universidade em 1989.
Meu pai precisou se endividar para que eu pudesse estudar. E eu estava numa universidade estadual.
E eu ainda tive mais sorte que muita gente.
Minha cunhada conheceu a fome.
Fome mesmo.
Hoje ela é pós-doutora.
É impossível olhar para uma trajetória dessas e enxergar apenas uma história individual de superação. Há esforço pessoal, evidentemente. Há talento. Há disciplina. Mas há também algo maior: a possibilidade que uma sociedade oferece quando decide abrir portas que, durante séculos, permaneceram fechadas para os mais pobres.
Porque esforço nenhum existe no vazio.
Sempre há uma estrada antes dos nossos passos.
E uma das missões mais nobres de um país deveria ser impedir que essa estrada terminasse diante da pobreza.
Hoje minha vida é muito diferente daquela dos anos 1980.
Tenho uma boa casa. Moro num lugar muito bom. Tenho bons carros. Vivo com conforto e qualidade.
E talvez exatamente por isso eu tenha uma obrigação ainda maior de não esquecer.
Não esquecer de onde vim.
Não esquecer o aperto da minha família.
Não esquecer meu pai fazendo dívidas para que o filho pudesse estudar.
Não esquecer minha cunhada conhecendo a fome antes de alcançar o pós-doutorado.
Não esquecer, sobretudo, minha mãe.
Minha mãe passou fome quando criança e adolescente.
Como eu poderia me esquecer disso?
Como poderia olhar para trás, para tudo que minha família atravessou, e simplesmente concluir que, agora que estou bem, o problema dos outros deixou de ser meu problema?
Não consigo.
Quero para os outros aquilo que desejo para meus filhos.
Quero que o filho do trabalhador possa entrar numa universidade sem condenar a família inteira ao endividamento.
Quero que quem trabalha tenha tempo para viver.
Tempo para os filhos.
Tempo para descansar o corpo.
Tempo para amar.
Tempo para passear.
Tempo para ler um livro.
Tempo até mesmo para fazer nada.
Porque uma pessoa não nasceu apenas para produzir.
É por isso que considero tão importante o debate sobre o fim da escala 6×1, que nossa elite covarde e secularmente exploradora quer negar ao nosso povo.
Por trás de uma discussão aparentemente técnica existe uma pergunta profundamente humana: quanto da vida de alguém pode ser consumido pelo trabalho?
Essa elite covarde e exploradora enxerga trabalhadores como números, custos, produtividade, mão de obra, peças de uma grande engrenagem econômica.
Eu não consigo enxergá-los assim.
Talvez porque tenha memória.
Quando vejo um trabalhador, vejo um pouco do meu pai.
Vejo minha mãe.
Vejo minha cunhada.
Vejo aquele jovem de 1989 tentando permanecer na universidade enquanto o pai fazia malabarismos financeiros para sustentá-lo.
Vejo milhões de brasileiros que ainda percorrem hoje caminhos parecidos com aqueles que minha família percorreu décadas atrás.
Foi vivendo tudo isso que aprendi que política nunca é uma abstração.
Política pode ser a diferença entre estudar e abandonar a escola.
Entre comer e passar fome.
Entre trabalhar para viver e viver apenas para trabalhar.
Entre encontrar uma porta aberta e passar a vida inteira do lado de fora.
Talvez a maior armadilha da prosperidade individual seja acreditar que chegamos sozinhos.
Não chegamos.
Há sempre alguém que nos carregou por algum trecho.
Um pai.
Uma mãe.
Um professor.
Uma escola pública.
Uma universidade.
Uma política pública.
Uma oportunidade.
Uma sociedade que, em algum momento, decidiu investir em nós.
Por isso minha prosperidade não apagou minha memória.
Fez exatamente o contrário.
Quanto melhor ficou minha vida, mais evidente se tornou para mim que dignidade não deveria ser privilégio.
Eu não quero um país bom apenas para os meus filhos.
Quero um país em que o filho de quem limpa uma casa, dirige um ônibus, trabalha num supermercado, serve uma mesa, levanta uma parede ou passa o dia inteiro debaixo do sol possa chegar mais longe do que seus pais chegaram.
Quero que tenha universidade.
Quero que tenha comida.
Quero que tenha trabalho digno.
Quero que tenha descanso.
Quero que possa sonhar sem que o sonho dependa de um pai se endividar inteiro.
Há uma imagem que me acompanha.
A de uma porta.
Passei boa parte da juventude tentando atravessá-la.
Meu pai ajudou a empurrá-la.
Minha família pagou o preço.
Outras pessoas, em algum momento, também ajudaram a mantê-la aberta.
Eu atravessei.
Minha cunhada atravessou.
Meus filhos encontraram um país diferente daquele que encontrei.
E seria uma enorme traição à minha própria história chegar do outro lado e fechar essa porta.
Não.
A vida me ensinou outra coisa.
Depois que conseguimos atravessar, temos uma responsabilidade: segurá-la aberta.
Para quem vem atrás.
Para o filho do pobre.
Para quem ainda sente fome.
Para quem trabalha seis dias esperando algumas horas de vida no sétimo.
Para quem ainda olha uma universidade como eu olhava em 1989: com esperança e medo.
É por isso que minhas escolhas públicas não começam na minha conta bancária.
Começam na memória.
Na fome da minha mãe.
Na dificuldade da minha cunhada.
Nas dívidas do meu pai.
No jovem que eu fui.
E terminam numa convicção que os anos apenas fortaleceram:
um país não pode ser medido pela tranquilidade de quem chegou ao topo.
Deve ser medido pela distância que ainda falta para quem começou lá embaixo.
Eu já atravessei a porta.
Agora, o mínimo que posso fazer é não fechá-la.
Para mantê-la aberta, neste domingo eu votarei na reeleição de Lula. Não é por Lula, não é por mim, mas porque milhões de irmãos e irmãs brasileiros e brasileiras não voltem à fila do osso, para que as políticas públicas continuem dando cidadania, dignidade e educação a todos e todas.
Por isso, neste domingo, peço a você: vamos reeleger Lula presidente do Brasil.
Sem medo de ser feliz!





