Senhora Aparecida,
Eu, que tantas vezes hesito diante dos mistérios da fé, hoje me curvo diante de Ti.
Não sei rezar como rezam os devotos. Não conheço as palavras exatas, não carrego certezas sobre o céu e talvez nem saiba reconhecer os sinais divinos. Mas conheço a esperança dos homens. Conheço a dor de um povo. E sei que, quando a noite se torna ameaçadora, até um agnóstico procura alguma luz.
Por isso, Senhora, venho pedir que cubras o Brasil com teu manto.
Estamos diante da eleição mais importante de nossa história. Em poucos dias, decidiremos não apenas quem governará o País, mas que nação desejamos ser — e até mesmo se continuaremos tendo o direito de decidir livremente o nosso destino.
Protege-nos de todo o ódio lançado sobre o Brasil pela extrema direita. Livra-nos das palavras que ferem, das mentiras que envenenam, do fanatismo que separa famílias, da intolerância que transforma o adversário em inimigo e do autoritarismo que se fantasia de ordem enquanto prepara o silêncio.
Não permitas, Senhora, que o preconceito contra os pobres volte a comandar esta terra.
São justamente eles — os secularmente humilhados, explorados e esquecidos — que mais pronunciam teu nome. São eles que caminham quilômetros para chegar aos teus santuários. São suas mãos calejadas que acendem velas diante de tua imagem. São suas mães que te pedem pão, saúde, emprego e proteção para os filhos.
Como poderia alguém afirmar que te ama e, ao mesmo tempo, desprezar aqueles que mais procuram teu consolo?
Nesta hora decisiva, guarda nossa democracia. Porque, se escolhermos mal, talvez estejamos votando, de maneira livre e transparente, pela última vez. O autoritarismo também pode chegar pelo voto, usando as portas da democracia para entrar e, depois, fechá-las por dentro.
Protege também nossa soberania.
Não permitas que o Brasil entregue suas riquezas, sua independência e seu futuro aos interesses egoístas de Donald Trump e dos Estados Unidos. Não deixes que retornemos à condição de colônia, condenados a obedecer aos poderosos, a oferecer nossas terras, nossas águas, nossos minérios e o trabalho de nosso povo aos que enxergam o Brasil apenas como território a ser explorado.
Que teu manto cubra a Amazônia, o Cerrado, os rios, as florestas, os campos e as cidades. Que cubra os indígenas, os negros, os trabalhadores, as mulheres, os jovens, os idosos, os cristãos e os seguidores de todas as religiões. Que alcance também aqueles que, como eu, não têm uma fé definida, mas acreditam profundamente na dignidade humana.
Ajuda-nos a continuar no caminho do resgate da cidadania dos mais pobres.
Que o filho da trabalhadora possa continuar ingressando na universidade e reescrevendo a história de sua família. Que a filha do pedreiro possa vestir um jaleco, entrar numa sala de aula, ocupar um tribunal, dirigir uma empresa ou governar este País. Que nenhum sobrenome, nenhuma cor de pele, nenhuma origem social ou crença determine o tamanho dos sonhos de uma criança.
Que todas as raças sejam respeitadas.
Que todos os credos sejam protegidos.
Que ninguém seja perseguido por sua fé — nem obrigado a seguir a fé de outro.
Que o desenvolvimento não seja privilégio de meia dúzia de elitizados, mas bênção repartida por toda a Nação. Que o pão chegue a todas as mesas, que o conhecimento alcance todas as casas e que a prosperidade deixe de morar apenas nos bairros ricos para visitar também as periferias, os sertões, os quilombos, as aldeias e os pequenos municípios esquecidos pelo poder.
Senhora Aparecida, mãe negra encontrada nas águas por mãos pobres, talvez compreendas melhor do que ninguém este Brasil que insiste em emergir do fundo do rio, quebrado e ferido, mas ainda capaz de reunir seus pedaços e transformar sofrimento em esperança.
Eu não sei se me escutas.
Mas sei que milhões de brasileiros confiam em Ti.
E, se a fé é também a coragem de continuar quando tudo parece ameaçado, permite que eu, por um instante, compartilhe dessa fé.
Estende teu manto sobre o Brasil. Ilumina nossa consciência. Afasta de nós o ódio, o medo, a submissão e a violência. Ajuda-nos a escolher a democracia, a soberania, a justiça e a vida.
E que, depois da tempestade, possamos continuar sendo um povo livre, diverso, generoso e senhor do próprio destino.
Viva Nossa Senhora Aparecida!
Viva a democracia!
Viva o Brasil!





