PROSEMA
Há épocas em que Deus parece desaparecer dos corações para reaparecer nos palanques.
Agora que estamos em campanha eleitoral, começam novamente a falar em Deus.
Cada candidato procura mostrar-se mais cristão do que o outro.
Multiplicam-se as orações diante das câmaras.
Surgem as fotografias nas igrejas.
Pronunciam-se versículos cuidadosamente escolhidos.
E até Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, é convocada para participar da disputa pelos votos.
Mas Deus não é candidato.
Deus não pertence à direita nem à esquerda.
Não possui filiação partidária.
Não faz campanha eleitoral.
Não sobe aos palanques para abençoar projetos de poder.
O cristianismo não se mede pelo número de vezes que alguém pronuncia o nome de Deus, mas pela maneira como trata o próximo.
De que vale beijar a cruz durante a campanha e desprezar os pobres depois das eleições?
De que serve ajoelhar-se diante do altar e permanecer indiferente à fome, à injustiça, ao racismo e ao sofrimento humano?
Não basta falar em Deus.
É preciso reconhecê-Lo no faminto, no doente, no desempregado, na criança abandonada, no idoso esquecido e no estrangeiro rejeitado.Também não basta invocar Nossa Senhora Aparecida para conquistar o voto dos católicos. A Padroeira do Brasil não pode ser transformada em cabo eleitoral.
A sua imagem pertence à fé de um povo, não à propaganda de um partido.
Mas também não se justifica atacar Nossa Senhora Aparecida para conquistar votos entre os evangélicos.
Transformar a fé católica em objeto de agressão é tão condenável quanto utilizar a imagem da Padroeira do Brasil como instrumento de propaganda eleitoral.
O Brasil é um Estado laico.
Isso não significa um Estado inimigo de Deus ou contrário às religiões. Significa um Estado sem religião oficial, que respeita todas as crenças e protege igualmente o direito de não acreditar.
Católicos, evangélicos, espíritas, adeptos das religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos e pessoas sem religião possuem a mesma dignidade e os mesmos direitos.
Nenhum candidato deveria atacar uma religião para conquistar os seguidores de outra.
Quem ofende Nossa Senhora Aparecida para agradar aos evangélicos não está a defender a liberdade religiosa: está a explorar a intolerância.
Quem utiliza a imagem de Nossa Senhora para insinuar que somente os católicos são verdadeiramente brasileiros também não defende a fé:
instrumentaliza-a politicamente.
A religião deve aproximar consciências, não separar eleitores.
Há candidatos que procuram mostrar-se mais cristãos do que os próprios ensinamentos de Cristo.
Falam de Deus, mas espalham o ódio.
Carregam a Bíblia, mas desprezam o perdão.
Defendem a família, mas humilham outras famílias.
Pregam a paz, mas alimentam a violência.
Deus, Deus, quantos crimes se cometem em Teu nome!
Talvez o verdadeiro cristão não seja aquele que mais grita “Senhor, Senhor” diante das multidões, mas aquele que, longe das câmaras, oferece pão, justiça, misericórdia e dignidade.
A fé começa onde termina o espetáculo.
A fé merece respeito.
O voto exige liberdade.
E o Estado laico protege ambos.
Deus não precisa do voto dos homens.
Os homens é que precisam deixar de usar o nome de Deus para conquistar o poder.
Nossa Senhora Aparecida não pode ser transformada nem em cabo eleitoral nem em alvo de campanha.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.





