Aos deputados federais, estaduais, senadores e ao próximo governador fica uma pergunta simples: O que será feito para conciliar menos empregos prometidos e mais empresas criadas? E o que será feito também para que o tocantinense que tem coragem de empreender tenha também condições de crescer?
Há uma frase de um artigo que li e que foi publicado recentemente que deveria provocar uma boa conversa no Tocantins: “O paradoxo central do empreendedorismo brasileiro é que as pessoas empreendem apesar do ambiente, não por causa dele.”
É uma frase dura, mas difícil de ignorar.
O brasileiro sonha cada vez mais em ter o próprio negócio. Segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor, o percentual da população que coloca a abertura de uma empresa entre seus principais sonhos passou de 34% para 40% em apenas um ano. Em 2017, eram cerca de 18%. O empreendedorismo tornou-se um dos grandes sonhos dos brasileiros.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita agora, especialmente aqui no Tocantins:
E o que estamos fazendo para que esse sonho sobreviva?
Porque abrir uma empresa é uma coisa.
Fazer essa empresa sobreviver, crescer, contratar pessoas, pagar impostos, investir, inovar e eventualmente se transformar numa empresa média ou grande é outra história.
E é justamente nessa passagem que uma política pública inteligente pode fazer toda a diferença.
O Tocantins já deu a resposta.
Antes de qualquer discurso político, vamos olhar os números.
O Tocantins já possui uma verdadeira multidão de empreendedores.
Segundo dados divulgados pelo Sebrae Tocantins, o Estado tinha 157.961 pequenos negócios ativos em 2025. Em fevereiro de 2026, esse número já havia chegado a 160.474.
Não estamos falando, portanto, de uma economia sem iniciativa.
Estamos falando de uma economia que já está tentando crescer.
O problema é saber se o poder público está crescendo na mesma velocidade da coragem de quem empreende.
Em Palmas, por exemplo, foram abertas milhares de empresas em 2026, mantendo um saldo positivo de novos negócios. Serviços, microempresas e MEIs lideram esse movimento.
É um sinal importante.
O Tocantins tem gente querendo investir.
Tem gente querendo trabalhar.
Tem gente querendo criar.
Tem gente querendo correr riscos com o próprio dinheiro.
A pergunta é: o Estado vai ajudá-las a transformar coragem em escala?
O empreendedor não pode ser lembrado apenas na hora do imposto
Existe uma cultura brasileira que precisa ser superada.
Quando o empresário cresce, o Estado aparece para cobrar.
Quando ele precisa de licença, aparece a burocracia.
Quando precisa de crédito, encontra juros e garantias.
Quando precisa contratar, encontra custos e insegurança.
Quando precisa vender para o poder público, encontra processos complexos.
Quando precisa inovar, muitas vezes não sabe a quem recorrer.
E quando consegue vencer todas essas etapas e finalmente cresce, muitas vezes descobre que crescer também significa enfrentar uma estrutura tributária e regulatória cada vez mais complexa.
Não estou defendendo que o Estado deixe de fiscalizar.
Muito pelo contrário.
Um Estado moderno precisa fiscalizar, regular e cobrar impostos.
Mas precisa também criar um ambiente no qual produzir seja mais interessante do que desistir.
A diferença é enorme.
A eleição terminou. A cobrança começa agora.
O Tocantins acaba de escolher seus representantes para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa e elegeu seus novos senadores. A eleição para governador, por sua vez, terá segundo turno entre Professora Dorinha e Vicentinho Júnior.
Independentemente de quem vencer o segundo turno, existe uma agenda que não deveria pertencer a um partido.
Deveria pertencer ao Tocantins.
E ela começa com uma pergunta aos deputados federais eleitos:
O que vocês farão em Brasília para trazer investimentos, infraestrutura, crédito, tecnologia, conectividade e novos mercados para as empresas tocantinenses?
Aos deputados estaduais:
Que leis podem ser aperfeiçoadas para reduzir burocracia, dar segurança jurídica e facilitar a vida de quem produz no Estado?
Aos senadores:
Como usar a força política de Brasília para defender obras estruturantes, financiamento, industrialização, logística e competitividade para o Tocantins?
E ao futuro governador, seja Dorinha ou Vicentinho:
Qual será a política de Estado para transformar pequenos negócios em empresas capazes de crescer, gerar empregos e conquistar mercados dentro e fora do Tocantins?
Essa talvez seja uma das perguntas econômicas mais importantes dos próximos quatro anos.
Não basta abrir empresas. Precisamos fazê-las crescer
Há uma diferença fundamental entre política de empreendedorismo e política de crescimento empresarial.
A primeira ensina alguém a abrir uma empresa.
A segunda pergunta:
Como fazer essa empresa chegar ao segundo ano? Ao quinto? Ao décimo? Como fazê-la contratar dez pessoas? Depois cinquenta? Como fazê-la vender para outros Estados? Como exportar? Como incorporar tecnologia?
Essa deveria ser a nova régua.
Porque o Tocantins não precisa apenas de mais CNPJs.
Precisa de empresas maiores, mais produtivas, inovadoras e competitivas.
Precisamos transformar MEIs em microempresas.
Microempresas em empresas de pequeno porte.
Empresas de pequeno porte em médias empresas.
E criar condições para que algumas delas se tornem grandes empresas tocantinenses.
É assim que uma economia ganha musculatura.
Crédito é importante. Mas crédito sozinho não resolve
O próprio Tocantins já possui instrumentos que podem ser ampliados.
A Agência de Fomento oferece linhas de crédito para pequenos empreendedores e diferentes setores da economia.
Isso é importante.
Mas precisamos ir além.
O empreendedor não precisa apenas de dinheiro.
Precisa de mercado.
Precisa de qualificação.
Precisa de tecnologia.
Precisa de logística.
Precisa de segurança jurídica.
Precisa de informação.
Precisa de mão de obra qualificada.
Precisa conseguir vender.
E, principalmente, precisa de previsibilidade.
Não adianta dar crédito para uma empresa e depois deixá-la enfrentar um ambiente que dificulta sua sobrevivência.
É como colocar combustível em um carro sem construir a estrada.
O Estado pode ser o maior cliente das pequenas empresas.
Existe outra oportunidade gigantesca: as compras públicas.
O governo estadual compra alimentos, uniformes, móveis, tecnologia, equipamentos, serviços de manutenção, comunicação, transporte, consultoria, medicamentos, materiais de construção e milhares de outros produtos.
Por que não transformar parte maior desse poder de compra em uma política de desenvolvimento empresarial?
Não se trata de favorecer empresas.
Trata-se de criar condições para que pequenas empresas possam competir.
Uma pequena fábrica de móveis de Gurupi pode fornecer para uma escola estadual.
Uma agroindústria familiar pode fornecer alimentos.
Uma empresa de tecnologia de Palmas pode desenvolver uma solução para o governo.
Uma empresa de turismo de Mateiros pode entrar em uma estratégia estadual de promoção do Jalapão.
Uma indústria de Araguaína pode vender para outros Estados.
Uma empresa de Porto Nacional pode participar de uma cadeia logística.
O governo não precisa ser dono dessas empresas.
Pode ser o cliente que ajuda essas empresas a crescerem.
E existe uma oportunidade ainda maior: transformar o Tocantins em uma plataforma.
O Tocantins tem uma vantagem que ainda exploramos pouco.
Estamos no centro do Brasil.
Temos agricultura.
Temos pecuária.
Temos água.
Temos energia.
Temos minerais.
Temos biodiversidade.
Temos turismo.
Temos cidades que podem funcionar como polos regionais de desenvolvimento.
Temos ferrovias, rodovias, hidrovias e possibilidade de integração logística.
O desafio é fazer com que tudo isso deixe de ser apenas potencial e se transforme em cadeias de negócios.
Não basta produzir soja.
Precisamos perguntar:
Por que não processar mais soja aqui?
Não basta produzir carne.
Por que não ampliar a industrialização da proteína aqui?
Não basta ter minério.
Por que não agregar valor ao minério aqui?
Não basta ter rios.
Por que não transformar o Araguaia e o Tocantins em vetores de turismo, logística e economia sustentável?
Não basta ter o Jalapão.
Como fazer com que mais dinheiro do turista permaneça no Tocantins?
Essa é a diferença entre uma economia que vende matéria-prima e uma economia que constrói riqueza.
O empreendedor precisa entrar no planejamento do Estado
Talvez o próximo governo precise criar algo maior do que um programa de empreendedorismo.
Precisamos de uma política estadual permanente de crescimento empresarial.
Uma política que sobreviva ao governador.
Que tenha metas públicas.
Que acompanhe quantas empresas foram abertas.
Quantas sobreviveram.
Quantas cresceram.
Quantas receberam crédito.
Quantas passaram a exportar.
Quantas contrataram.
Quantas inovaram.
Quantas venderam para o poder público.
Quantas saíram da informalidade.
E quantas conseguiram atravessar a fronteira do Tocantins.
Porque desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo número de inaugurações do governo.
Pode e deve ser medido também pelo número de portas de empresas que permanecem abertas.
Uma pergunta para todos nós
Existe uma imagem que gosto de usar quando penso no Tocantins.
Uma semente pode carregar dentro dela uma árvore inteira.
Mas ninguém joga uma semente no chão e volta no dia seguinte esperando encontrar uma floresta.
É preciso terra.
Água.
Luz.
Tempo.
Proteção.
E cuidado.
O empreendedor é parecido.
A ideia é a semente.
O capital é a água.
A qualificação é a luz.
A infraestrutura é a terra.
A segurança jurídica é a proteção.
E o mercado é aquilo que permite à árvore crescer.
Nenhuma semente cresce apenas porque o governo mandou.
Mas uma política pública inteligente pode impedir que ela morra antes de florescer.
É isso que está em jogo no Tocantins.
Não precisamos de um governo que faça tudo.
Precisamos de um governo que permita que mais pessoas façam.
Não precisamos de políticos que prometam empregos.
Precisamos de políticas que permitam que milhares de empreendedores criem empregos.
Não precisamos apenas de grandes investimentos vindos de fora.
Precisamos também fazer nascer grandes empresas dentro do Tocantins.
E talvez essa seja a pergunta que a sociedade tocantinense devesse fazer aos seus novos representantes:
Deputados, senadores e governador: vocês estão preparados para construir um Estado em que o empreendedor não precise vencer o governo para vencer na vida?
Porque o Tocantins já tem gente com coragem para empreender.
Os números estão aí.
Agora falta transformar essa coragem em uma estratégia de desenvolvimento.
O sonho do empreendedor cresceu.
Está na hora de o ambiente crescer junto.
TOM LYRA
Ex-vice-governador do Tocantins; ex-secretário de Estado da Indústria, Comércio e Serviços; ex-secretário de Estado do Turismo e Cultura; ex-secretário de Desenvolvimento Econômico de Palmas; empresário e escritor; presidente da Agência Tocantinense de Regulação, Controle e Fiscalização dos Serviços Públicos (ATR).





