
Prosema
Há mortes que levam uma pessoa.
E há mortes que parecem levar consigo uma biblioteca, uma redação inteira, uma maneira de observar o mundo.
Morreu Zuenir Ventura.
E o Brasil fica hoje um pouco mais pobre de palavras, de memória e de lucidez.
Aos 95 anos, parte um daqueles jornalistas que pertenciam a uma geração para a qual escrever não era apenas juntar frases numa página. Era testemunhar.
Era perguntar. Era desconfiar das verdades demasiado prontas. Era caminhar pelas ruas, ouvir pessoas, atravessar conflitos e depois regressar à máquina de escrever — mais tarde ao computador — carregando a responsabilidade de contar.
Zuenir escreveu durante mais de seis décadas.
Viu o Brasil mudar de rosto muitas vezes.
Viu esperanças nascerem e morrerem.
Viu democracia e autoritarismo.
Viu multidões nas ruas, censura, medo, violência, sonhos e contradições.E transformou parte dessa experiência em livros que permanecerão quando já não estivermos aqui.
1968 — O Ano que Não Terminou tem um título quase profético.
Porque há anos que acabam no calendário, mas continuam dentro das sociedades.
Continuam nas feridas.
Continuam nas perguntas.
Continuam nos silêncios.
Continuam na memória daqueles que recusam esquecer.
Também escreveu Cidade Partida.
E talvez poucas expressões tenham conseguido resumir tão dolorosamente certas contradições brasileiras: a cidade dividida entre quem tem quase tudo e quem luta para ter quase nada; entre o asfalto e a favela; entre a segurança de alguns e o medo cotidiano de tantos.
Zuenir sabia que o jornalismo não existe apenas para registrar declarações de poderosos.
Existe também para iluminar aquilo que a sociedade prefere manter na penumbra.
Por isso sua morte pesa ainda mais num tempo em que a informação é, tantas vezes, atacada pelo ruído.
Nunca tivemos tantos meios para comunicar.
E talvez nunca tenhamos produzido tanta confusão ao mesmo tempo.
A mentira ganhou velocidade.
O boato ganhou tecnologia.
A ignorância encontrou megafones.E certezas fabricadas começaram a viajar mais depressa do que os fatos.
É nesse sentido que sua partida dói num país que precisa combater permanentemente o obscurantismo — não com outra intolerância, mas com aquilo que sempre foi a melhor arma contra ele:
conhecimento.
Livro.
Escola.
Ciência.
Cultura.
Jornalismo.
Pensamento crítico.

Porque o obscurantismo começa quando alguém nos convence de que pensar é perigoso.
Cresce quando perguntar passa a ser considerado afronta.
E triunfa quando as pessoas deixam de procurar a verdade porque preferem uma mentira que confirme aquilo em que já acreditavam.
Zuenir pertenceu ao outro lado dessa batalha.
Ao lado da pergunta.
Da curiosidade.
Da reportagem.
Da memória.
Da palavra escrita com responsabilidade.
Era um daqueles homens que envelhecem sem transformar a experiência em arrogância.
Continuava observando.
Continuava aprendendo.
Continuava escrevendo.
Talvez seja essa uma das maiores lições deixadas por um verdadeiro intelectual:
descobrir, depois de uma vida inteira de conhecimento, que o mundo ainda contém perguntas.
Hoje, uma cadeira da Academia Brasileira de Letras fica vazia.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, de Portugal.
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