O encontro entre Lula e Donald Trump expôs um tema que vai muito além da diplomacia tradicional: a disputa global pelos minerais críticos. No centro dessa agenda estão as chamadas terras raras, fundamentais para carros elétricos, turbinas eólicas, satélites, equipamentos militares, semicondutores, celulares e toda a nova economia tecnológica.
O ponto central não é apenas saber quem quer comprar. É saber se o Brasil terá estratégia para transformar riqueza mineral em poder econômico, industrial e geopolítico.
Segundo informações divulgadas após a reunião, Lula afirmou que o Brasil não dará acesso preferencial aos Estados Unidos nem a qualquer outro país, abrindo espaço para empresas americanas, chinesas, europeias e japonesas, desde que o controle regulatório permaneça brasileiro. Essa é a postura correta, mas ainda insuficiente. Soberania não se declara apenas em coletiva; soberania se constrói com política industrial, tecnologia, refino, financiamento, segurança jurídica e capacidade de negociação. 
O Brasil tem uma vantagem rara: possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais. Mas vantagem geológica não é, por si só, vantagem econômica. O erro histórico brasileiro sempre foi exportar pedra barata e importar tecnologia cara. Se esse ciclo se repetir nas terras raras, estaremos apenas trocando o minério de ontem pelo minério do futuro.
A disputa é estratégica porque a China domina grande parte do refino global, criando dependência para Estados Unidos, Europa e outros mercados. Por isso, Washington quer reduzir sua vulnerabilidade e buscar novas cadeias de fornecimento. A compra da Serra Verde, em Goiás, por uma empresa americana, estimada em US$ 2,8 bilhões, mostra que essa corrida já começou, e começou dentro do território brasileiro. 
O Brasil precisa entender o tamanho da mesa em que está sentado. Terras raras não são apenas uma pauta ambiental, mineral ou comercial. São uma pauta de defesa nacional, transição energética, indústria avançada e desenvolvimento regional.
A pergunta que deveria orientar o debate é simples: vamos vender apenas o subsolo ou vamos construir uma cadeia produtiva?
O país precisa exigir contrapartidas claras: transferência de tecnologia, instalação de plantas de separação e refino, formação de mão de obra, pesquisa aplicada, participação de universidades, fundos de desenvolvimento regional e agregação de valor dentro do Brasil. Sem isso, qualquer acordo será apenas mais uma versão sofisticada do velho extrativismo colonial.
O Tocantins, inserido no coração do MATOPIBA, deve observar esse movimento com atenção. A nova fronteira de desenvolvimento brasileiro não será definida apenas pela soja, pela logística ou pela energia. Será definida também pela capacidade dos estados de se posicionarem diante da economia mineral, tecnológica e ambiental que está surgindo.
A lição é objetiva: quem controla minerais críticos controla parte relevante da indústria do século XXI. Quem apenas extrai e exporta continua dependente.
O Brasil tem uma janela histórica. Mas janela histórica também fecha. Se o país não agir com inteligência, outros países agirão por nós, financiando, comprando, refinando e capturando o maior valor da cadeia.
Terras raras não podem ser tratadas como commodity comum. São ativo estratégico. E ativo estratégico não se entrega com pressa, não se negocia sem contrapartida e não se regula de forma improvisada.
O futuro está no subsolo brasileiro. A decisão agora é se ele será convertido em soberania ou em dependência.
FELIPE ROCHA MARTINS
É administrador de empresas, empresário, empreendedor e produtor rural, com atuação voltada à estruturação e desenvolvimento de negócios nos setores do agronegócio, incorporação imobiliária e construção civil. Possui formação executiva em economia brasileira para negócios pela FEA-RP/USP, com ênfase em análise econômica aplicada à tomada de decisão empresarial.





